A Psicologia Analítica (Junguiana)

Autor:Luiz Guilherme Marques
Páginas:123-145
 
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A PSICOLOGIA AnALítICA (JUnGUIAnA)
DUANE P. SCHULTZ e SYDNEY ELLEN SCHULTZ (1992:362-
365) falam sobre a Psicologia Analítica:
Um ponto fundamental de diferença entre Jung e Freud vincula-se com a
natureza da libido. Enquanto Freud a defendia em termos predominan-
temente sexuais, Jung a considerava energia vital generalizada de que
o sexo era apenas uma parte. Para Jung, essa energia libidinal básica se
exprime no crescimento e na reprodução, e também em outras atividades,
a depender do que é mais importante para um indivíduo num momento
particular.
A recusa junguiana de considerar a libido como exclusivamente sexual
deixou-o livre para dar interpretações diferentes ao comportamento que
Freud só podia definir em termos sexuais. Para Jung, por exemplo, entre os
três e os cinco anos de vida, que ele denominava fase pré-sexual, a energia
libidinal serve às funções de nutrição e de crescimento e não tem nenhuma
das nuanças sexuais da concepção freudiana desses primeiros anos.
Jung também rejeitava o complexo de Édipo freudiano e explicava o apego
da criança à mãe em termos de uma necessidade de dependência, com
todas as satisfações e rivalidades associadas com a função materna de
fornecer alimento. À medida que a criança amadure e desenvolve o funcio-
nalismo sexual, as funções de nutrição combinam-se com sentimentos se-
xuais. Para Jung, a energia libidinal só assume forma heterossexual depois
da puberdade. Ele não negava a existência de fatores sexuais, mas reduzia
o papel do sexo ao de um dos impulsos que compõem a libido.
É fácil ver que as próprias experiências de vida de Jung influenciaram sua
teoria: como a de Freud, foi intensamente autobiográfica. Já observamos
que a imersão pessoal de Jung no inconsciente pressagiava seu interesse
profissional ulterior pelo tópico. Com relação ao sexo, as evidências tam-
bém são altamente sugestivas. Jung não tinha como usar, nem precisava
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de um complexo de Édipo em sua teoria, porque isso não tinha relevância
para a infância. Ele descrevera a mãe como uma mulher gorda e pouco
atraente, e por isso nunca pôde compreender a insistência de Freud de que
todo garotinho tinha anseios sexuais pela mãe.
Ao contrário de Freud, Jung não desenvolveu nenhuma insegurança, inibi-
ção nem ansiedade sobre o sexo quando adulto, e não fez nenhuma tenta-
tiva de limitar suas atividades sexuais, também ao contrário de Freud. Na
verdade, Jung teve alguns casos com pacientes e discípulas. “Para Jung,
que satisfazia livre e frequentemente suas necessidades sexuais, o sexo
tinha um papel mínimo na motivação humana. Para Freud, acossado por
frustrações e ansioso com seus desejos contrariados, o sexo tinha o papel
central” (Schultz, 1990, p. 148).
A segunda diferença básica entre as obras de Freud e Jung é a sua concep-
ção da direção das forças que influenciam a personalidade humana. Freud
via as pessoas como vítimas dos eventos da infância; Jung acreditava que
somos moldados por nossas metas, esperanças e aspirações com relação
ao futuro, bem como pelo nosso passado. Jung propunha que comporta-
mento humano não é determinado por inteiro pelas primeiras experiências
da vida, estando sujeito a mudança em anos subsequentes.
Uma terceira diferença entre os dois é que Jung enfatizava mais o incons-
ciente. Ele tentava mergulhar mais profundamente na mente inconsciente,
tendo-lhe acrescentado uma nova dimensão – as experiências herdadas
dos seres humanos como espécie e as dos seus ancestrais animais (o in-
consciente coletivo).
Jung usava o termo psique para referir-se à mente, que segundo ele con-
sistia em três níveis: a consciência, o inconsciente pessoal e o inconsciente
coletivo. No centro da mente consciente está o ego, que se assemelha à
nossa concepção de nós mesmos. A consciência inclui percepções e lem-
branças, e é a via de contato com a realidade que nos permite adaptar-nos
ao nosso ambiente. Jung acreditava, contudo, que se dera demasiada aten-
ção à consciência, que ele julgava secundária diante do inconsciente. Ele
comparava a parte consciente da psique com a porção visível de uma ilha.
Existe uma parte maior desconhecida sob a pequena parte visível acima
da linha da água, e foi nessa base oculta misteriosa que Jung concentrou
sua atenção.
Ele postulava dois níveis do inconsciente. Logo abaixo da consciência está
o inconsciente pessoal, pertencente ao indivíduo. Ele consiste em todas
as lembranças, impulsos, desejos, percepções fugidias e outras experiên-
cias da vida da pessoa que foram suprimidas ou esquecidas. Incidentes do

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