Matopiba: uma nova fronteira agrícola ou um reordenamento geográfico do agronegócio e dos espaços produtivos de 'cerrados'?

Autor:Clóvis Caribé Menezes dos Santos
Cargo:UEFS
Páginas:570-600
RESUMO

Os espaços territoriais com áreas do bioma “cerrado” dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, foram denominados ‘MATOPIBA’ (em referência ao acrônimo dos 4 estados com áreas de chapada). Neles predominava até recentemente uma estrutura agrária de ocupação econômica pela pecuária extensiva, combinada com agricultura mercantil simples e extrativismo dirigido à exportação. Situados em... (ver resumo completo)

 
TRECHO GRÁTIS
Cadernos do CEAS, Salvador/Recife, n. 245, p. 570-600, set./dez., 2018 | ISSN 2447-861X
MATOPIBA: UMA NOVA FRONTEIRA AGRÍCOLA OU UM
REORDENAMENTO GEOGRÁFICO DO AGRONEGÓCIO E DOS
ESPAÇOS PRODUTIVOS DE CERRADOS
Matopiba: a new agricultural frontier or a geographic reorganization of
agribusiness and "cerrados" production areas?
Clóvis Caribé Menezes dos Santos (UEFS)
Informações do artigo
Recebido em 25/06/2018
Aceito em 17/07/2018
doi>: 10.25247/2447-861X.2018.n245.p590-623
Resumo
Os e spaço s t errito riais co m á reas do bioma c errado  d os estado s
do Maranh ão, Toca ntins , Piauí e Bahi a, foram denominados
MATOPIBA em referência ao acrônimo dos  estados com áreas de
chapada). Neles predominava até recentemente uma estrutura agrária de
ocupação econômica pela pecuária extensiva, combinada com
agricultura mercantil simples e extrativismo dirigido à exportação.
Situados em solos de elevada aptidão par a o cult ivo, p assaram a ser
considerados a mais recen te fr ontei ra agr ícola bras ileira  Nesses
espaços foram im pleme ntado s, historicamente, um a série de
progra mas e specia is e de inver sões p or par te do Estad o que
contri buíra m, de for ma decis iva, pa ra a sua exp ansão a gríco la. O
princi pal de sses pr ograma s foi o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira
para o Desenvolvimento dos Cerrados PRODECER que, em sua segunda
edição, a partir de 1 985, ampliou sua área de atuação, incorporando os
cerrados da região oeste do Estado da Bahia e os cerrados dos estados do
Tocantins e do Maranhão. O objetivo central desse artigo é ressaltar as
profundas transformações da base técnica que ocorrem nos cerrados dos
quatro estados, onde, seguindo os princípios norteadores do PRODECER,
ganharam relevância a partir do início da primeira década do ano 2000 e
passaram a significar sinônimo e possibilidade de grandes investimentos
públicos e privados, nacionais e internacionais, no setor agrícola da
economia nacional. Trata-se do principal espaço de transformações no
setor rural brasileiro no início do Séc. XXI e um dos principais alvos da
cobiça do agronegócio globalizado, em que são explícitos os processos
econômicos associativos e estratégicos do capital f inanceiro n a
perseguição do lucro e da renda da te rra, sob o patrocínio de políticas de
Estado.
Palabras-chave: Cerrados. MATOPIBA. Fronteira. Espaço. Território.
Abstract
The territorial areas with areas of the cerrado biome of the States of
Maranhão, Tocantins, Piauí and Bahia are denominated as 'MATOPIBA'
in reference to the acronym of the  states with great chapada area s
Until recently there predominated an agrarian structure with the
economic occupation of extensive livestock farming, combined with
simple commercial agriculture and export-oriented extrac tion. Situated
on soils of high aptitude for agricultural production, they came to be
considered the most recent Brazilian agricultural frontier In these
spaces, a series of special programs and investments by the State have
been historically implemented and contributed decisively to its
agricultural expansion. The foremost of these programs was the
PRODECER (Japanese-Brazilian Cooperation Program for the
Development of Cerrados which in its second edition from the
beginning of 1985, expanded its area of activity, incorporating the
cerrados of the west region of the state of Bahia and the cerrados of the
states of Tocantins and Maranhão. The main objective of this article is to
highlight the profound tran sformations of the technical base that took
place in the cerrado areas of the four states. Following the guiding
principles of PRODECER, it has gained importance since the beginning of
the decade of 2000 and has become synonymous to possibilities of large
public and private investments, national and international, to the
agricultural sector of the national economy at the beginning of the XXI
century. It is the main space for tr ansformations in the Brazilian rural
sector and one of the chief targets for the greed of the globalized
agribusiness, in which are explicit the associative and stra tegic economic
processes of the financial c apital in pursuit of profit and the rent of the
land, under the patronage of State policies.
Keywords: Cerrados. MATOPIBA. Frontier. Space. Territory.
Cadernos do CEAS, Salvador/Recife, n. 245, p. 570-600, set./dez., 2018 | ISSN 2447-861X
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MATOPIBA: uma nova fronteira agrícola ou um reordenamento geográfico... | Clóvis Caribé Menezes dos Santos
Introdução
Os e spaços
1 terri toriais c om áreas do bi oma cer rado do s estado s do M aranhão
Tocant ins, Piau í e Bahi a foram denominados MATOPIBA em referência ao acrônimo dos
4 estados com áreas de chapada). Neles predominava até recentemente uma estrutura
agrária de ocupação econômica pela pecuária extensiva, combinada com agricultura
mercantil simples e extrativismo dirigido à exportação que passaram a ser considerados a
mais recente fronte ira agrícola bra sileira E transformaram-se em um alvo muito apetitoso
para a agroindústria, que já controla mais de 75% das terr as cultiváveis do Brasil (El País, de
26 de março de 2018).
Os proc essos de oc upação his tórica dess es espaços já não são tão recente s, e foi
a par tir do in ício da d écada de 1970 que o setor público, a través da s difere ntes esfer as,
procur ou exer cer pape l releva nte na economi a norde stina, po r me io de e stímulos
financ eiros e fisc ais à ativid ade pr odutiva, princip almente no s etor p rimário. Naquele
períod o, as atençõe s do núcleo de comando do pa ís estavam vol tadas para a agricultur a
passív el de ser mode rnizada e dese nvolvida, pr incipalment e nos espa ços de cerrad os da
Região Centr o-Oeste e n os espa ços do semiá rido d a regi ão nor destina, q ue a
expan são agropec uária da A mazônia ap resentava dificuldad es. Para q ue essa di nâmica
se v iabilizass e, nos espaço s rurai s dos estados da Região Nordes te foram
implem entados pr ogramas es peciais de estímulo que contr ibuíram de cisivament e para
sua ex pansão agr ícola.
Os pr incipais program as impl ementados nos espaços rurais dos e stados da
Região Nordeste d o Brasil for am o Programa de Desenvolvimento de Áreas Integradas do
1 Neste trabalho, a compreensão sobre o conceito de espaço que se adequa às premissas aqui incorporadas é a
que nos apresentou o profess or Milton Santos  o espaço deve ser considerado como um conjunto de
relações realizadas através de funções e formas que se apresentam como testemunho de uma história escrita
por processos do passado e do presente... por relações sociais que estão acontecendo diante de nossos olhos
e que se manifestam através de processos e funções... um verdadeiro campo de forças cuja aceleração é
desigual Daí porque a evolução espacial não se faz de forma idêntica em todos os lugares p . Quanto a
território trata-se, fundamentalmente, de um espaço definido e delimitado a partir de relações e do exercício
de poder, quer se faça referência ao poder público, estatal, quer ao poder das grandes empresas que
estendem os s eus tentáculos por gran des áreas territoriais ignorand o as fronteiras políticas Usados
indistintamente ao lado de r egião de cidade âmbito dimensão etc Isso tudo muito embora se diga ao
mesmo tempo, que existem estreitas relações entre povos e territórios, que essas estreitas relações reforçam
o sentido de pertinência cultural, que preexistem a qualquer forma jurídic o-institucional da sociedade
SOLINÍS p   O conceito de território não deve ser confundido com o de espaço ou o de lugar
estando muito ligado à ideia de domínio ou de gestão de uma determinada área ANDRADE p  006).

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