A tradição francesa de crítica sociológica à Economia Política

Autor:Philippe Steiner
Cargo:Professor da Universidade de Paris IV (Sorbonne). Endereço eletrônico: Philippe.
Páginas:13-46
RESUMO

O texto defende a tese segundo a qual existe uma tradição que vai de Comte a Bourdieu passando por Durkheim e durkheimianos e que esta tradição é de natureza intelectual. O texto parte de uma apresentação das três principais formas de crítica sociológica da Economia Política que existem desde o final do século XIX. A seguir mostra que a posição defendida pelos três sociólogos franceses não pode... (ver resumo completo)

 
TRECHO GRÁTIS
Dossiê
A tradição francesa de crítica
sociológica à Economia Política
Philippe Steiner*
Resumo
O texto defende a tese segundo a qual existe uma tradição que vai de
Comte a Bourdieu passando por Durkheim e durkheimianos e que esta
tradição é de natureza intelectual. O texto parte de uma apresentação
das três principais formas de crítica sociológica da Economia Política que
existem desde o final do século XIX. A seguir mostra que a posição defen-
dida pelos três sociólogos franceses não pode ser explicada somente por
sua formação ou por sua relação (distanciada) com a Economia Política e
ressalta a filiação intelectual dos três, que visa desqualificar cientificamente
a Economia Política em razão do papel dado às representações sociais,
sejam as engendradas pela atividade econômica ela mesma, sejam aquelas
construídas previamente através das instituições escolares.
Palavras-chave: Sociologia Econômica, crítica da Economia Política, repre-
sentações sociais.
1. Introdução
As obras de Augusto Comte, Émile Durkheim e Pierre Bourdieu
oferecem uma continuidade surpreendente para o leitor interes-
sado na sua relação com a Economia Política. De fato, os três grandes
sociólogos criticam essa ciência social em razão dos erros metodoló-
gicos cometidos pelos economistas. Tal desqualificação da Economia
Política conduz todos os três a conferir à Sociologia do Conhecimento
* Professor da Universidade de Paris IV (Sorbonne). Endereço eletrônico: Philippe.
Steiner@paris-sorbonne.fr.
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Volume 8 – Nº 15 – outubro de 2009
um papel central tanto na crítica como quando se trata de definir os
desafios práticos que a sua crítica coloca em primeiro plano.1
Defenderemos a tese segundo a qual existe uma tradição
intelectual que vai de Comte a Bourdieu, passando por Durkheim e
os durkheimianos (ver anexo 1 para informações historiográficas).
Ressaltemos de início que o presente texto não pretende defender
a idéia da existência de uma tradição francesa de crítica da Eco-
nomia Política, no sentido de que ela seria tipicamente francesa. É
fácil demonstrar que tal idéia é errônea. De um lado, existem fortes
críticas da Economia Política que, por não saírem da pena de um
sociólogo (no sentido da posição acadêmica), não se encontram
menos próximas da crítica sociológica que existe na obra de Émile
Durkheim e François Simiand, como é o caso de Thorstein Veblein
(GISLAIN & STEINER, 1999). Por outro lado, existem sociólogos e
filósofos franceses que, embora abordem de maneira detalhada
os problemas teóricos e históricos apresentados pela Economia
Política, apreendem esse fato social de um modo crítico muito dis-
tinto, como se pode observar com Raymond Boudon (1995; 1998;
2002) ou com Michel Focault (1978; 1979). Além disso, à exceção
de Comte, essa crítica é alimentada com referências a trabalhos
estrangeiros (ver anexo 2).
Para evidenciar a originalidade da tradição intelectual exami-
nada aqui, nós a compararemos de início às críticas formuladas por
Karl Marx de um lado e por Vilfredo Pareto e Max Weber de outro.
Essa comparação é necessária por duas razões: primeiramente ela
permite comparar a “reforma” da Economia Política de Comte com
a crítica da Economia Política assumida por Marx n’O capital, haja
vista que ela permite situar as críticas de Durkheim e Bourdieu
vis-à-vis aquelas dos dois grandes sociólogos economistas clássicos
(seção 1). Veremos em seguida que a posição dos três sociólogos
1 Artigo publicado na Revue d’Histoire des Sciences Humaines (Paris, v. 17, maio
de 2008, p. 63-84 ); u ma p rimeira ver são foi apresenta da n o Co lóquio
“Tradition s National es en S ciences S ociales”, realizado e m maio de 2005
na Amst erdam School for Social Science Rese arch. Agradec emos as gen tis
permissões dos editores e do autor para a tradução. Tradução de Marcia da
Silva Maz on e Luis Hernan A. P. Mendoza e rev isão da tradução de Gustavo
Biscaia de Lacerda e Cécile Raud.
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Philippe Steiner
A tradição francesa de crítica sociológica à Economia Política
Dossiê
franceses não pode ser explicada somente pela formação deles ou
por sua relação (distanciada) com a Economia Política (seção 2).
Ressaltaremos, então, sua filiação intelectual que visa a desqualificar
cientificamente a Economia Política em razão do papel conferido às
representações sociais, quer sejam elas engendradas pela própria
atividade econômica, quer sejam provenientes da sua construção
social por intermédio da instituição escolar (seção 3).
2. A economia como ‘falsa ciência’: de Comte a
Bourdieu passando por Durkheim
A crítica da Economia Política não é uma preocupação exclu-
siva dos sociólogos. Os economistas foram os primeiros críticos
do seu próprio saber: no século XVIII, desde que o projeto de uma
ciência econômica foi formulado pelos Fisiocratas; posteriormente,
no século XIX, quando dos debates sobre o método mantidos entre
os economistas clássicos (STEINER, 1998, cap. 2 e 4). É necessário
então começar por esclarecer a natureza da crítica sociológica da
Economia Política antes de buscar caracterizar a posição dos soci-
ólogos franceses.
Quando se trata da crítica sociológica da Economia Política,
é preciso distinguir entre três opções que aparecem nas viradas
dos séculos XIX e XX (STEINER, 1999: 10-12). A posição de Comte,
Durkheim e Bourdieu têm por alternativas a posição de Pareto, por
um lado, e a de Weber e Joseph Schumpeter, por outro.
A crítica de Pareto se insere dentro de uma estratégia de com-
plemento. Partindo da Economia Política pura, Pareto sugere tornar
mais complexo o modelo teórico com o qual se busca compreender
a atividade econômica e social, acrescentando a economia aplica-
da e em seguida a Sociologia. Segundo Pareto, o homo economicus
da teoria pura não passa de uma primeira aproximação, tornada
mais complexa quando se considera que esse homo economicus tem
paixões outras que não as econômicas, de modo a resultar no ser
social ainda mais complexo, composto de homo economicus, homo
religiosus, homo sexualis etc., do qual trata a Sociologia. Portanto,
a Economia Política pura não está condenada pela sua abstração.
Antes, a estratégia paretiana consiste na afirmação repetida e ar-

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