Ditadura civil-militar no Brasil: o protagonismo das mulheres nos espaços políticos

Autor:Alana de Mendonça Ramos - André Queiroz Barbeiro Lima - Irene Jacomini Bonetti - Sofia Jardim Carvalho - Thamíris Evaristo Molitor
Páginas:79-93
 
ÍNDICE
TRECHO GRÁTIS

Page 79

Ver notas 1, 2, 3, 4 y 5

1. Introdução

O presente artigo pretende investigar, de forma sucinta, a participação feminina sob diversos aspectos no período da ditadura militar brasileira (1964-1985). Para isso, foi realizada uma revisão bibliográfica de publicações existentes sobre o tema, que, no entanto, encontram-se dispersas. O objetivo é dar visibilidade e enfoque à importância da participação feminina na história do trabalho e da política brasileira.

A análise da relação entre as questões de gênero e o contexto político se justifica pois a construção de um entendimento acerca da mulher como categoria de análise durante tal período ainda é escassa. O capitalismo perpetuou, ao longo dos anos, a divisão sexual do trabalho, delegando às mulheres o dever de cuidado e o espaço privado, e destinando aos homens o espaço público e a visibilidade na questão dos trabalhos e políticas. Escrever sobre as mulheres que romperam com tal perspectiva é trazer à luz tais sujeitas históricas, reconhecendo suas disputas pelo espaço político e importância na construção da história brasileira.

Segundo Ferreira6, a amnésia social, ou, no caso, desconhecimento - visto que não se pode esquecer aquilo que não se conheceu - se dá de forma social-mente organizada através de um processo seletivo, controlado pelas esferas de poder. Contar a história de tais sujeitas desviantes é uma tarefa contra hegemônica de resistência e memória. Por tais motivos, muitas das fontes encontradas baseiam-se na oralidade, sendo feitas por meio de entrevistas com mulheres que vivenciaram o período.

Para aprofundar a pesquisa sobre a presença das mulheres nos momentos históricos do nosso país, optamos por dividir a análise entre as diversas questões que perpassam as mulheres como sujeitos na sociedade. As questões de sexualidade, de raça, de classe e de linha política serão expostas em diferentes itens, para que possamos compreender a complexidade que existe nas relações mesmo entre as próprias mulheres.

Por meio de diversas formas as mulheres brasileiras desafiaram o papel destinado à elas pela sociedade capitalista patriarcal no período da Ditadura Militar. Houve, no período, aumento da taxa de sindicalização das mulheres (de 1978 a 1979, houve um crescimento de sindicalização urbana de mulheres equivalente a 9,6%, 3,4% acima da taxa de sindicalização

Page 80

masculina)7 e aumento no número de operárias no setor industrial, ações que questionavam a divisão sexual do trabalho. As mulheres passaram a ocupar espaços de trabalho ditos produtivos sem que, no entanto, o trabalho reprodutivo, o trabalho doméstico, passasse a ser dividido com os homens. As militantes de esquerda, segundo Ana Maria Colling8, ao se colocarem enquanto sujeitas políticas, desafiaram duplamente os papéis a elas destinados: insurgiam-se contra a política golpista e desconsideravam os padrões "femininos" estabelecidos, ocupando o espaço político.

É claro que havia, também, as mulheres que se colocavam a favor do regime ditatorial. Mulheres que, normalmente, ocupavam o lugar de esposa, dona de casa e mãe da família "tradicional", em sua grande maioria componentes da classe dominante do país. Essas mulheres tinham interesse em defender a tomada do poder pelos militares, os quais defenderiam a "família" e seu domínio econômico contra as ideias transgressoras dos "comunistas". Estas mulheres eram, em sua esmagadora maioria, brancas. Apesar de não se identificarem como mulheres de direita e sim como pessoas "apolíticas", assim elas foram chamadas no presente estudo já que elas defendiam as ideias da direita conservadora do país: parcela da população que acreditava que ideias progressistas seriam uma ameaça "destruidora" de famílias.

Já as mulheres negras foram historicamente excluídas desse padrão branco de família tradicional. Alijadas dos espaços da alta sociedade, a essas mulheres sempre foi imposta a ocupação de espaços subalternos de trabalho. A herança escravocrata do Brasil perpetuou uma cultura racista que divide a sociedade e serve ao capitalismo como mais uma forma de explorar mão de obra e precarizar os trabalhadores e as trabalhadoras, a partir de discriminações de raça e gênero, por exemplo. Todavia, pode se notar a presença de tais mulheres nos diversos espaços de resistência e enfrentamento, com atenção ao seu protagonismo nos movimentos sociais de bairros periféricos.

Por outro lado, ocupando as camadas "transgressoras" e responsáveis por questionar o padrão hetero-patriarcal da sociedade, encontravam-se as mulheres lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis. Marginalizadas e perseguidas, exerciam papel central no questionamento quanto à sexualidade, à liberdade e ao prazer da mulher.

O foco é tratar de como o golpe civil-militar transformou a vida das mulheres brasileiras e que papel elas exerceram tanto na resistência ao regime quanto no apoio civil dado aos militares. A luta das mulheres oprimidas e exploradas deve passar a receber a visibilidade e a centralidade devidas. Além disso, também é importante trazer luz ao apoio dado pela população civil aos militares, já que eles não conseguiriam ficar no poder por décadas não fosse o apoio orquestrado pelas elites econômicas que faziam vista grossa às torturas e ao abuso de poder.

É importante ressaltar que o artigo não possui e nem poderia ter como objetivo esgotar o assunto. A história dessas mulheres deve ser cada vez mais trazida à luz e à pauta do dia. Relembrá-las é resistir e construir referências femininas tão importantes na construção da história e identidade brasileira. A disputa da narrativa histórica é essencial e foi-se o tempo em que ela foi considerada como construída e contada por homens.

2. As mulheres militantes da esquerda

O contexto da Ditadura Militar procurou construir a ideia de que a sociedade estava posta de forma unitária e não diversificada, sendo dividida entre dois blocos antagônicos representados pela situação e oposição. A imagem de um sujeito homogêneo acaba por apagar diferenças importantes relacionadas à questões de gênero, sexualidade, classe e raça.

Se de um lado o discurso a favor do regime desconsiderava tais condições e valia-se da ideologia conservadora para desqualificar as mulheres militantes tratando-as como apêndices masculinos, pode-se afirmar que a esquerda tradicional também não estava livre de tal prática. Alvo de ataques tanto pela direita quanto dentro dos próprios espaços de luta da esquerda, o papel feminino é reiteradamente compreendido como secundário. A militância revolucionária entendia que o comando político deveria ser feito por homens, sendo as dirigentes femininas raras nos grupos clandestinos. Ao considerar que o antagonismo principal se dava entre a burguesia e o proletariado, ou entre os que defendiam o regime e o que contra ele se insurgiam, institui-se a invisibilidade da mulher enquanto sujeito político.

Ana Maria Colling afirma que as próprias mulheres militantes acabavam por assumir a dominação masculina, tentando camuflar sua sexualidade numa cate-

Page 81

goria "sem sexo": a militante política. Colling afirma ainda que a mulher militante era vista como um ser desviante e não como uma mulher verdadeira, pois aos olhos da repressão essa mulher atacava duplamente a ordem posta: primeiro por se colocar enquanto sujeita política, espaço historicamente destinado aos homens pelo patriarcado; segundo pela opção política de se colocar contra o regime militar.9

É pertinente reconhecer que as mulheres participaram da luta de resistência contra o regime militar nos mais diversos espaços, no movimento estudantil, partidos, sindicatos, organizações clandestinas e na luta armada.

2.1. As operárias e a ditadura militar

A homogeneização da construção de sujeitos históricos que acaba por ignorar e apagar as figuras femininas também é presente em relação às pesquisas acadêmicas referentes a situação das mulheres trabalhadoras.

Segundo Leila Blass, Helena Hirata e Vera Soares,10 até o início dos anos 1970 houve poucas pesquisas que consideraram o gênero no momento da análise acadê-mica. Havia, portanto, uma visão homogênea da classe trabalhadora que ocultava a atividade feminina e as desigualdades de gênero. Segundo SCARPELLI e SILVA as análises em relação à questão do trabalho no período em tela se concentraram nos movimentos grevistas de repercussão nacional, privilegiando informações sobre as greves de Osasco e Contagem, em 1968, e as greves dos metalúrgicos no ABC paulista, em 197811. Entretanto, fontes que contenham uma análise com recorte de gênero sobre o período são escassas, graças ao esforço existente para invisibilizar e apagar as trajetórias femininas.

As mulheres estudadas nesta parte do artigo se inseriam em um mundo duplamente masculino: o mundo do trabalho e o da política, embora menos frequente.

Ousaram se inserir enquanto operárias, em um ambiente altamente masculinizado e, embora em menor número, se colocaram enquanto sujeitas políticas atuando nas greves.

Contagem, município da Região Metropolitana de Belo Horizonte, foi palco de uma dessas atuações políticas femininas. SCARPELLI e SILVA, afirmam que segundo Delsy Gonçalves de Paula, militante da Ação Popular à época, o pleno...

Para continuar a ler

PEÇA SUA AVALIAÇÃO