Mediação de Conflitos e Facilitação de Diálogos: aportes teóricos para diálogos com múltiplas partes

Autor:Tania Almeida
Ocupação do Autor:Docente e pesquisadora em Mediação de Confl itos e em Facilitação de Diálogos
Páginas:35-56
 
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Mediação de Conflitos e Facilitação de Diálogos: aportes teóricos
para diálogos com múltiplas partes46
Tania Almeida47
INTRODUÇÃO
O avanço cientí co e tecnológico da modernidade propiciou a necessária
fragmentação do conhecimento, criou as especialidades e os especialistas e des-
prestigiou as visões generalistas naturalmente carentes de aprofundada especi-
cidade. Esse processo acabou por desencadear a subespecialização e a sistema-
tização dos saberes nas distintas disciplinas e, sabiamente, não as hierarquizou
em termos de importância.
O movimento cientí co contemporâneo identi cou os benefícios e tam-
bém os custos da ação anterior e vem propondo que a construção do conheci-
mento, assim como a identi cação, a análise e os atos pertinentes às questões
relativas a qualquer classe de saber, possam incluir a ótica da multidisciplinari-
dade, caracterizada pela interação de saberes de múltiplas disciplinas, na busca
por manter os benefícios veiculados pela precisão de cada uma delas e evitar os
custos da ausência da visão holística.
No campo da gestão de con itos, o Direito e a Psicologia foram as disci-
plinas que se dedicaram, na modernidade, à prática da resolução de controvér-
sias. Emprestaram seus olhares aos contextos em con itos e possibilitaram que
fossem tratados, com especi cidade, tanto pelo viés jurídico como pelo viés
46 Este ar tigo foi escrito com a intenção de compilar os principais aportes teóricos compartilhados com
os integrantes do Projeto Paci car, coordenado pela Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação
Getulio Vargas (FGV) e pelo Viva-Comunidade e realizado em 2009. O aprendizado teórico-prático
foi exposto pelos alunos da Escola de Direito, participantes do projeto, em artigo produzido com essa
nalidade. O aprendizado prático dos atores comunitários  cou registrado em uma listagem de atitudes
facilitadoras do diálogo, construída por eles nas dinâmicas de campo.
47 Docente e pesquisadora em Mediação de Con itos e em Facilitação de Diálogos. Diretora-Presidente
do MEDIARE – Diálogos e Processos Decisórios. Médica. Pós-graduada em Neuropsiquiatria, Psica-
nálise, Terapia de Família, Sociologia e Gestão Empresarial. Mestranda em Mediação de Con itos pelo
Institut Universitaire Kurt Bösh (Suíça). A autora foi supervisora geral do Projeto Paci car, que motivou
essa publicação.
36 Mediação de Conflitos Comunitários e Facilitação de Diálogos: Relato de uma experiência na Maré
emocional, em separado. A psicologia jurídica48 veio socorrer os sujeitos em
con ito, identi cando algumas articulações entre os dois saberes e possibilitan-
do tratamentos menos fragmentados para as desavenças.
Na contemporaneidade, a Mediação de Con itos chega guardando coe-
rência com sua época e se constitui transdisciplinar em gênese e propósitos.49
A Mediação propõe um diálogo entre disciplinas e se constitui nas suas interfa-
ces. Atravessa a Filoso a, o Direito, a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia,
entre outras, sem manter  delidade absoluta a nenhuma delas. Na Mediação,
distintas disciplinas se articulam e a enriquecem com esse entrelaçamento. Por
pertencer à última geração dos Métodos Alternativos de Solução de Con itos,
incorpora a contemporaneidade da visão transdisciplinar, fazendo desaparecer
fronteiras entre diferentes saberes e, com isso, contemplando um leque maior
de aspectos contidos nos con itos.
Reeditada em momento histórico mundial dedicado a implementar a cul-
tura do diálogo na busca de soluções cooperativas e pací cas, em lugar das
tradicionais soluções adversariais e a uma maior participação dos cidadãos na
resolução dos próprios con itos, a Mediação, assentada na autonomia da von-
tade das partes, sobressai aos seus pares pela busca da genuinidade da autoria na
autocomposição de controvérsias.
Inspiradora de outros métodos dedicados ao diálogo inclusivo e partici-
pativo, como a Facilitação de Diálogos e o Diálogo Colaborativo, a Mediação
oferece seus princípios, seus propósitos e seu instrumental técnico, construídos
a partir do aporte de diferentes disciplinas, para a prática do diálogo produtivo
– aquele que privilegia a escuta (e não a contra-argumentação), a construção de
consenso (e não o debate), o entendimento (e não a disputa).
Este artigo dedica especial atenção à Mediação e à Facilitação de Diálogos
como processos contemporâneos, em sua gênese e propósitos, de construção de
consenso, assim como à participação do mediador e do facilitador de diálogos
como terceiros imparciais entre pessoas em discordância.
48 Psicologia na Mediação (Fiorelli; Malhadas Junior; Moraes, 2004) é uma obra que chama atenção para
os processos emocionais dos sujeitos em con ito e procura demonstrar a interferência da emoção na
participação desses sujeitos em processos de resolução de controvérsias.
49 Em Interdisciplinaridad en la Educación, Ezequiel Ander-Egg (1994) demonstra como esse é tema relevante
na vida intelectual contemporânea. O autor faz uma distinção entre multi ou pluridisciplinaridade – quan-
do várias disciplinas se ocupam simultaneamente de idêntico problema, ou seja, quando uma questão é
estudada por diferentes disciplinas – e disciplinaridade cruzada – um caso de integração de conhecimentos
cientí cos, em que o cruzamento dos saberes de diferentes disciplinas produz uma interação teórica e
metodológica que dá lugar a uma disciplina nova que expressa essa interdependência, como é o caso da Psi-
cologia Jurídica. Ander-Egg refere-se à transdisciplinaridade como uma perspectiva epistemológica que vai
além da interdisciplinaridade, buscando não só o cruzamento e a interpenetração de diferentes disciplinas,
mas, também, apagando os limites que existem entre elas para integrá-las em um sistema único.

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