Sobre a universidade no Brasil na era do choque cultural: a formação para tecnologia

Autor:Luiz Bevilacqua
Cargo:Doutor em Mecânica Teórica e Aplicada pela Stanford University, EUA
Páginas:43-65
RESUMO

Vivemos numa era de mudanças que se caracteriza pela velocidade com que elas ocorrem. Essa é uma experiência única e sem qualquer padrão anterior que possa servir de orientação. A capacidade de observação e computação desenvolvida nesses últimos cem anos proporcionou a convergência de várias disciplinas. As barreiras departamentais se desmontaram dando origem a uma "nova ciência"... (ver resumo completo)

 
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SOBRE A UNIVERSIDADE NO BRASIL NA ERA DO CHOQUE CULTURAL: A
FORMAÇÃO PARA TECNOLOGIA
1 Luiz Bevilacqua2
Resumo
Vivemos numa era de mudanças que se caracteriza pela velocidade com que elas
ocorrem. Essa é uma experiência única e sem qualquer padrão anterior que possa
servir de orientação. A capacidade de observação e computação desenvolvida
nesses últimos cem anos proporcionou a convergência de várias disciplinas. As
barreiras departamentais se desmontaram dando origem a uma “nova ciência”
caracteristicamente interdisciplinar. Se na pesquisa essa atitude está muito bem
aceita, particularmente no que se refere a modelos, nos cursos de graduação é
ignorada. É preciso encontrar novos eixos que atendam ao novo cenário científico e
tecnológico. A oportunidade de criar novas Universidades no Brasil favorece a
implantação de novos modelos cuja identidade seja mais adequada à formação dos
jovens universitários. A maioria das nossas Universidades tradicionais está na rota
de extinção. Urge ação imediata ousada e comprometida com o avanço do
conhecimento. É preciso romper as amarras culturais de complexo de inferioridade e
subserviência. assim poderemos de fato estar inseridos na comunidade
internacional. Universidade centrada no aprendizado e não no ensino, pesquisa para
avançar o conhecimento e não para engordar currículos, interdisciplinaridade como
efeito e não como causa e recuperação da confiança mútua são itens indispensáveis
para novas iniciativas. Os estudantes devem se preocupar com competência e não
com diplomas, mais com independência intelectual do que com disciplinas. Sair da
esteira e ir para a ponta no avanço do conhecimento. Menos protestos e mais
propostas. E finalmente não se deixar bloquear por formalidades. A organização de
cursos paralelos, modernos e informais, é uma ação lícita e necessária.
Palavras-chave: Choque Cultural. Interdisciplinaridade. Reorganização do
Conhecimento. Fator Cultural. Nova Universidade.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Uma época singular, nunca antes vivida e talvez nunca imaginada. A terra
continua girando em torno do sol com a mesma regularidade milenar. Mas, as
1 Este texto foi apresentado oralmente no Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no
Ensino, na Pesquisa e na Extensão Região Sul, em Outubro 2013, Florianópolis, SC, Brasil.
2 Doutor em Mecânica Teórica e Aplicada pela Stanford University, EUA. Coordenador do Núcleo de
Cognição e Sistemas da Fundação Universidade Federal do ABC. Professor Emérito da Coppe
Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia e Pró-Reitor de Pesquisa
e Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail:
bevilacqua@coc.ufrj.br
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R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.11, n.1, p.43-65, Jan./Jun. 2014
mudanças que se passam sobre esse minúsculo planeta sob a ação da parcela dos
seus habitantes, que têm o singular predicado de se reconhecerem a si mesmos,
evoluem com uma velocidade espantosa. A passagem de ano já não serve para
plantar o marco que separa as mudanças impactantes das conquistas da nossa
civilização. O nosso futuro passa agora a ser medido quase que literalmente pelo
“amanhã”. Dormimos dentro de um contexto e acordamos em outro. A figura retórica
do “amanhã” perde o sentido elusivo para o seu significado restrito, o dia seguinte.
Essa vertiginosa metamorfose não deixa tempo para fixar raízes o que significa
correr o risco de eliminar a âncora da tradição particularmente para as novas
gerações.
3 Os mais conservadores projetam desastres mais ou menos catastróficos,
que raramente se concretizam. Nós temos a extraordinária capacidade de resistir à
extinção. Provavelmente, a própria reação às mudanças tem um papel importante no
processo de evolução evitando rotas de extinção ou irrecuperáveis recuos
civilizatórios. De alguma forma, todos nós vamos aceitando ou recusando as
vertiginosas mudanças que nos invadem a vida. Seja individualmente, seja
coletivamente, sem compromisso social ou institucionalmente, todos interagimos
com a avalanche de acontecimentos que nos afetam a vida direta ou indiretamente.
Há, no entanto, uma característica peculiar ao processo evolutivo que nos empurra
para um novo mundo, é a aceleração com que isso acontece. Consequentemente, o
abismo que separa gerações alarga-se rapidamente dificultando o diálogo entre
gerações separadas por não mais do que uma dezena de anos. Ora uma das
instituições mais importantes nesse processo é a Universidade, por ser o canal pelo
qual uma fração considerável da população jovem passa enquanto as grandes
mudanças estão em curso e cujas origens remetem à própria universidade. A
formação dos estudantes passa a ser um processo dinâmico no qual convergem o
novo e o velho. Além disso, cabe à Universidade filtrar e anunciar à sociedade o que
importa de mais relevante na avalanche de novidades que nos engolfam. É esta a
3 Pode-se comparar esse fenômeno ao big-bang e ao universo inflacionário. Uma das hipóteses mais
instigantes propõe que, após a explosão inicial, o universo evoluiu num primeiro estágio com
mudanças relativamente pequenas. Após alguns instantes, inicia-se uma fase inflacionária em que o
crescimento é exponencial. Se considerarmos o século XVIII como a época do big-bang científico,
podemos dizer que a Era inflacionária começou em meados do século XX e está em plena evolução.
Um acontecimento semelhante aconteceu há mais de 2000 anos. Nos anos 500 AC , os filósofos
gregos deflagraram o big-bang do conhecimento ocidental cuja evolução deu origem a uma expansão
inflacionária na Escola de Alexandria, tendo alcançado seu ápice nos anos 330 DC. Uma diferença
essencial é que aparentemente a evolução atual está acontecendo na metade do tempo em que
ocorreu a formação da cultura helênica.

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