Um patrimônio em conflito: os reflexos dos discursos de civilidade e lazer no antigo cemitério da lagoa em barra velha/sc

Autor:Angelita Borba de Souza - Euler Renato Westphal
Cargo:Mestranda em Patrimônio Cultural e Sociedade pela Universidade da Região de Joinville, Joinville - Doutor em Teologia pelo Instituto Ecumênico de Pós-Graduação na Escola Superior de Teologia em São Leopoldo, São Leopoldo
Páginas:19-40
RESUMO

O artigo trata dos impactos que o antigo cemitério da lagoa localizado em Barra Velha, Santa Catarina, sofreu no decorrer do século XX. Vila de pescadores, Barra Velha compartilhava o antigo campo santo com comunidades vizinhas e os enterros destacavam-se pelo aspecto pitoresco, pois era necessária a utilização de canoas para transportar tanto o defunto quanto os familiares e amigos. Utilizado... (ver resumo completo)

 
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http://dx.doi.org/10.5007/1807-1384.2017v14n1p19
UM PATRIMÔNIO EM CONFLITO: OS REFLEXOS DOS DISCURSOS DE
CIVILIDADE E LAZER NO ANTIGO CEMITÉRIO DA LAGOA EM BARRA
VELHA/SC
Angelita Borba de Souza
1
Euler Renato Westphal2
Resumo:
O artigo trata dos impactos que o antigo cemitério da lagoa localizado em Barra
Velha, Santa Catarina, sofreu no decorrer do século XX. Vila de pescadores, Barra
Velha compartilhava o antigo campo santo com comunidades vizinhas e os enterros
destacavam-se pelo aspecto pitoresco, pois era necessária a utilização de canoas
para transportar tanto o defunto quanto os familiares e amigos. Utilizado desde o
final do século XVIII, o antigo cemitério foi substituído no ano de 1929 por outro
localizado mais ao centro do vilarejo, e após dezenas de anos servindo a população
da região, foi definitivamente abandonado. Símbolo do patrimônio barra -velhense o
terreno que abriga os restos mortais dos primeiros habitantes da região sofre as
consequências da especulação imobiliária, cujo atual interesse é vender terrenos às
margens da lagoa de Barra Velha para turistas de todo o sul do Brasil.
Palavras-chave: Patrimônio. Cemitério. Turismo e Sociedade.
1 INTRODUÇÃO
Na segunda metade do século XIX, através da ação de determinados agentes
políticos e grupos ligados às ideias liberais, e influência de ideias vivenciadas na
Europa, ganhou força irreversível no Brasil o desejo de encerrar a exploração do
trabalho escravo, livrar o país de ideias absolutistas e separar o Estado de preceitos
católicos. O catolicismo que se destacou como a religião oficial do Estado brasileiro
até a proclamação da república passou a ser questionado e suas ações que
causaram constrangimentos a seguidores outras crenças sofreram duras críticas a
partir da chegada de novos ideais ao Brasil. Era preciso separa o estado civil e o
estado religioso. Segundo Rodrigues (2005) o parlamento brasileiro discutiu com
frequência a partir de 1860 e com mais fervor nos últimos anos de Brasil Império a
1 Mestranda em Patrimônio Cultural e Sociedade pela Universidade da Região de Joinville, Joinville,
SC. Gestora da Secretaria de Educação do Estado de Santa Catarina em Joinville, SC, Brasil. E-mail:
angelitaborba@hotmail.com
2 Doutor em Teologia pelo Instituto Ecumênico de Pós-Graduação na Escola Superior de Teologia em
São Leopoldo, São Leopoldo, RS. Professor de Ética, Cultura e Sociedade e Pensamento
Contemporâneo no Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade da Universidade da Região de
Joinville, Joinville, SC, Brasil. E-mail: eulerwestphal@gmail.com
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R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.14, n.1, p.19-40 Jan.-Abr. 2017
necessidade de buscar um Brasil moderno e liberal, que se aparelhasse aos novos
preceitos vindos da Europa.
Um dos objetivos era mostrar o Brasil como um lugar ordeiro, moderno, laico,
higiênico e limpo para atrair os olhares e os investimentos de todas as ordens. Na
busca destes ideais, políticos e outros membros da sociedade iniciaram no decorrer
do XIX e fortemente no início do XX uma busca por novas ideais, novos padrões de
comportamento nas cidades, nas ruas, em público, no ambiente familiar, em festas,
em celebrações fúnebres, enfim, era preciso se adaptar aos novos ideais importados
da Europa e abandonar os antigos comportamentos. Outro objetivo perseguido a
partir da adoção de novos comportamentos era o de apagar as marcas deixadas
pelos séculos de colonização, exploração e escravidão ocorridos no Brasil.
As novas cidades estabeleceram regras que surpreenderam a maioria dos
seus usuários e atingiu aqueles que habitavam o coração das cidades e que
precisaram abandonar seus espaços para dar lugar a ruas e avenidas largas e bem
sinalizadas sinônimo de grandes centros modernos. Toda a estrutura urbana se
transformou, emergindo novas maneiras de se estar na cidade, modos seculares,
buscando a sintonia com a cultura europeia, principalmente francesa (CYMBALISTA,
2002, p.65).
Dentre os novos padrões de comportamento, destacamos a transformação
pela qual o morto e a morte passaram no Brasil. O corpo do morto e o fenômeno da
morte estiveram durante séculos sob a tutela da igreja, que controlava e ensinava os
caminhos para a salvação, entretanto, diante da separação entre Igreja e Estado,
foram liberados deste domínio. O discurso de secularização
3 da sociedade atingiu
além do morto e da morte, também o cemitério e os rituais fúnebres que deveriam
também se encaixar nos discursos de civilidade e organização. O cemitério, território
administrado pela igreja católica, sofreu os desdobramentos da secularização, pois,
da mesma forma que a cidade dos vivos passou por mudanças, também a cidade
dos mortos precisou adaptar-se aos novos ideais. Ele deixa de ser campo santo
3 A secularização designa, num primeiro momento, um fenômeno jurídico-político: a separação entre
as Igrejas e o Estado. Num segundo momento, expressa um progressivo movimento de expulsão da
religião do âmbito da esfera pública. O Estado secularizado se apresenta então como o novo
fundamento da “lei e orde m”, capaz d e assegurar aos homens um estado pacificado de convivência.
O movimento de circunscrição da religião à esfera do privado se reforça num terceiro m omento do
processo de secularização, a qual seja: a exigência dos modernos saberes técnico científico
experimental e a deslegitimação da teologia como “ciência das ciências”, ordenadora da totalidade
dos saberes. (BINGEMER, 2003, p.325)

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