Transe mediúnico e norma médica na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro da primeira metade do século XX: o olhar de Xavier de Oliveira

Autor:Artur César Isaia
Cargo:Universidade Federal de Santa Catarina, Departamento de História, Programa de Pós-Graduação em História
Páginas:31-50
RESUMO

Este texto tem como tema de análise o olhar de um psiquiatra brasileiro, natural do Ceará, sobre o espiritismo e o transe mediúnico: Antônio Xavier de Oliveira (1892-1953). O espiritismo aparece em sua obra como “lócus” desencadeador da doença mental e os espíritas como irremediavelmente loucos ou doentes mentais em potencial. Xavier de Oliveira procurou estreitar as relações já tecidas pelo... (ver resumo completo)

 
TRECHO GRÁTIS
1 Este texto integra uma pesquisa financiada pelo CNPq com Bolsa Produtividade em Pesquisa.
2 Universidade Federal de Santa Catarina, Departamento de História, Programa de Pós-Graduação
em História. Email: arturci@uol.com.br
TRANSE MEDIÚNICO E NORMA MÉDICA NA FACULDADETRANSE MEDIÚNICO E NORMA MÉDICA NA FACULDADE
TRANSE MEDIÚNICO E NORMA MÉDICA NA FACULDADETRANSE MEDIÚNICO E NORMA MÉDICA NA FACULDADE
TRANSE MEDIÚNICO E NORMA MÉDICA NA FACULDADE
DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO DA PRIMEIRA METDE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO DA PRIMEIRA MET
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DO SÉCULO XX: O OLHAR DE XADO SÉCULO XX: O OLHAR DE XA
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DO SÉCULO XX: O OLHAR DE XAVIER DE OLIVEIRAVIER DE OLIVEIRA
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Artur Cesar Isaia2
Resumo: Este texto tem como tema de análise o olhar de um psiquiatra brasilei-
ro, natural do Ceará, sobre o espiritismo e o transe mediúnico: Antônio Xavier de
Oliveira (1892-1953). O espiritismo aparece em sua obra como “lócus”
desencadeador da doença mental e os espíritas como irremediavelmente loucos
ou doentes mentais em potencial. Xavier de Oliveira procurou estreitar as rela-
ções já tecidas pelo discurso médico-psiquiátrico entre espiritismo e loucura. Os
pacientes que apresentavam alguma familiaridade com o transe mediúnico apa-
recem em sua obra desqualificados e carentes da norma médica.
Palavras-Chave: Espiritismo; Religiões Mediúnicas; Discurso Médico-Psiquiá-
trico
Abstract: This text analyses the view of a Brazilian psychiatrist, from Ceará, on
spiritism and mediumist trance: Antônio Xavier de Oliveira (1892-1953). Spiritism
is shown in his work as an unchaining “locus” of the mental disease, and spiritists
as irremediably crazy or possibly mentally ill. Xavier de Oliveira tried to narrow
the relationships already estabilished by the medical-psychiatric speech between
spiritism and madness. The patients who presented some familiarity with
mediumistic trance appear in his work as discredited and deprived of the medical
norm.
Key-words: Spiritism; Mediumistic Religions; medical (psychiatric) discourse.
32 REVISTA ESBOS Volume 17, Nº 23, pp. 31-50 — UFSC
O Livro dos Médiuns de Allan Kardec [...] é o tóxico com que se
envenenam todos os dias os débeis mentais, futuros hóspedes
dos asilos de insanos. Lêem-no, assimilam-no, incluem a essência
diabólica de que é composto, caldeiam os conhecimentos nele
adquiridos nas sessões espíritas e com o delírio mediúnico que
geralmente vêm a entreter esses tarados, só tem dois caminhos a
seguir: ou mais um médium convicto e convincente ganham as
macumbas do Rio, ou mais um psicopata ganham os manicômios
desta capital.
(Xavier de Oliveira. “Espiritismo e Loucura”)
INTRODUÇÃO
Em sua passagem pelo Hospício da Praia da Saudade no Rio de Janeiro,
Lima Barreto deixou um registro ímpar da psiquiatria e dos psiquiatras brasilei-
ros, para ele dotados de um conhecimento importado, livresco, que os tornavam
insensíveis aos dramas dos internos. Deixou-nos um documento sobre a desuma-
nidade de um tratamento que tentava despir o paciente de sua subjetividade; da
coerção de um conhecimento normativo, que se apresentava como capaz de pre-
ver comportamentos, desqualificando o considerado doente mental, ao mesmo
tempo em que se qualificava frente ao estado como um parceiro na tarefa de
higienizar a sociedade. O relato de Lima Barreto interessa-nos por ser um regis-
tro privilegiado de um homem que deveria passar incógnito como tantos outros
homens e mulheres a quem se impunha o silêncio pela ciência discriminatória da
época. A possibilidade que um homem familiarizado com as letras teve de legar
suas impressões sobre a instituição manicomial brasileira do início do século XX
transforma a obra de Lima Barreto numa voz que venceu a imposição do silêncio
e a brutal vivência cotidiana da doença mental. E aí reside a importância histórica
e humana de suas impressões, deixadas em “O Cemitério dos Vivos”. Entre suas
impressões sobre médicos, pacientes e tratamentos, aparecia a figura do Dr.
Henrique Belford Roxo, catedrático de psiquiatria da Faculdade de Medicina do
Rio de Janeiro. Dele escreve Lima Barreto:
Ele me parece inteligente, estudioso, honesto; mas não sei
por que não simpatizo com ele. Ele me parece um desses médi-
cos brasileiros imbuídos de um ar de certeza de sua arte, des-
denhando inteiramente toda a outra atividade intelectual que
não a sua e pouco capaz de examinar o fato por si. Acho-o
muito livresco e pouco interessado em descobrir, em levantar
um pouco o véu do mistério – que mistério! – que há na espe-
cificidade que professa. Lê os livros da Europa, dos Estados
Unidos, talvez; mas não lê a natureza. Não tenho por ele anti-
patia; mas nada me atrai a ele.3

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