A teoria dos sistemas e o meio ambiente

Autor:Marcelo Rodrigues Prata
Páginas:17-56
 
ÍNDICE
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1.1. O pensamento sistêmico

Fritjof Capra ensina que no século XVI a visão era a do mundo como um todo orgânico, vivo e espiritual — “o todo é maior que a soma de suas partes” (Aristóteles). Ela, no entanto, foi substituída pela metáfora da máquina. Por sua vez, Galileu Galilei inaugura a ciência moderna, mas restringe a ciência ao estudo dos fenômenos que podiam ser medidos e quantificados. Já René Descartes criou o pensamento analítico, segundo o qual o todo deve ser decomposto em partes, a fim de ser compreendido. Aliás, o segundo dos quatro preceitos de Descartes, em suas palavras, propõe “... dividir cada uma das dificuldades que examinasse em tantas parcelas quantas fosse possível e necessário para melhor resolvê-las”.1 A propósito, ensina Capra:

O poder do pensamento abstrato nos tem levado a tratar o meio ambiente natural — a teia da vida — como se ele consistisse em partes separadas, a serem exploradas comercialmente, em benefício próprio, por diferentes grupos. Além disso, estendemos essa visão fragmentada à nossa sociedade humana, dividindo-a em outras tantas nações, raças, grupos religiosos e políticos. A crença nesses fragmentos alienou-nos da natureza e de nossos companheiros, e, dessa maneira, nos diminuiu.2

Já no século XVIII, Kant considerou que os organismos vivos, em oposição às máquinas, são dotados de capacidade autorreprodutora e auto-organizadora.

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No século XIX as descobertas de Louis Pasteur estabeleceram o elo entre os germes e as doenças.3 Enquanto no século XX, mais precisamente na década de 1920, os biólogos foram pioneiros na fixação da principal característica do pensamento sistêmico, pois “... enfatizavam a concepção dos organismos vivos como totalidades integradas”.4 A propósito, o biólogo e filósofo Karl Ludwig von Bertalanffy, nascido em Atzgersdorf, próximo de Viena, em 1901, e morto em Buffalo (Nova Iorque), em 1972, é considerado o pai da Teoria dos Sistemas:

Segundo o autor, a constatação de conceitos, modelos e leis semelhantes em campos de conhecimento muito diversos, de forma independente e fundados em fatos totalmente distintos, levou aos seguintes questionamentos: que princípios são comuns aos vários níveis de organização e podem, assim, ser transladados de um nível a outro e considerados para uma teoria geral dos sistemas? As sociedades e civilizações podem ser consideradas sistemas? Para o autor existem leis gerais aplicáveis a qualquer sistema de determinado tipo, sem importar as propriedades particulares do sistema nem seus elementos participantes.5

A seguir vieram as contribuições da Psicologia da Gestalt, da Ecologia e da Física Quântica.6 Segundo Fritjof Capra: o pensamento sistêmico tem a capacidade de encarar a natureza “... como uma teia interconexa de relações, na qual a identificação de padrões específicos como sendo ‘objetos’ depende do observador humano e do processo de conhecimento”. Além disso, ele explica que “Na ciência sistêmica toda estrutura é vista como a manifestação de processos subjacentes. O pensamento sistêmico é sempre pensamento processual”.7

A Teoria dos Sistemas reconhece que o Homem não tem capacidade de estudar todo o conhecimento disponível, ele “... não pode conhecer a natureza em toda a sua complexidade. [...] Não resta, assim, um sentido a ser seguido, mas, sim, um ambiente em que o caos é a única certeza”.8 A Teoria dos Sistemas é “‘uma metateoria, já que se apresenta como linguagem aplicável a qualquer teoria ou ciência humano-social’ possibilitando, dessa forma, uma observação da realidade conectada e não isolável”.9 (Grifamos.)

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Por outro lado, a sociedade pós-moderna, hipercomplexa, exige o estudo transdisciplinar de determinado objeto de interesse, de modo a se ter uma visão global dos problemas:

Onde tudo devia ser mensurável e compreensível, surge a possibilidade de aceitar o incomensurável e o incompreensível (LYOTARD, 2002). Na busca pela aceitação do que não é palpável, são desenvolvidas teorias interdisciplinares (KLEIN, 1990) que, em áreas distintas do conhecimento, procuram soluções passíveis de tornar inteligível aquilo que não seria possível conceber ou compreender, apenas se utilizando da linguagem específica de cada disciplina.10

1.2. A autopoiesis em Maturana e Varela

O biólogo Humberto Maturana era professor da Universidade do Chile na década de 1960, quando percebeu que os estudos biológicos se limitavam aos processos internos dos seres vivos; ele intuiu que seria necessária a análise em conjunto com as interações com o meio. Nessa mesma época, Francisco J. Varela, que foi seu aluno, passou a participar das pesquisas do professor. Eles foram obrigados a deixar o Chile em virtude da ditadura militar de 1973, prosseguindo seus estudos, separadamente, no exterior.11

As descobertas de Maturana e Varela foram tão importantes que passaram a influenciar não só os destinos da biologia, mas também os da epistemologia e os da sociologia. Por sua vez, algumas das suas principais contribuições foram amplamente utilizadas por Niklas Luhmann, na década de 1980, como método de observação social.12 De modo que não é possível compreender a obra desse último sem uma noção segura dos conceitos desenvolvidos por Maturana e Varela, como: clausura operacional; organização; estrutura; autopoiesis; acoplamento estrutural; perturbação; comunicação; linguagem etc. Desse modo, faremos um rápido passeio pelas ideias de Maturana e Varela de maneira que seja possível ao leitor se iniciar no pensamento luhmanniano.

Maturana e Varela ensinam que organizações são “... as relações que devem ocorrer entre os componentes de algo, para que seja possível reconhecê-lo como membro de uma classe específica”. (Grifos nossos). Assim, para que,
v. g., uma cadeira exista é preciso que eu reconheça a relação existente entre as suas partes — pés, assento, espaldar. Pouco importa que ela seja feita de plástico, aço ou madeira. O essencial é que seja possível distingui-la de

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modo universal, trata-se de um ato cognitivo básico, que consiste em gerar classes.1314

Além disso, eles entendem por estrutura de algo “... os componentes e relações que constituem concretamente uma unidade particular e configuram uma relação” — grifamos:

Assim, por exemplo, numa descarga de banheiro a organização do sistema de regulação do nível de água consiste nas relações entre um aparelho capaz de detectá-lo e outro mecanismo capaz de cortar o fluxo de entrada do líquido. No banheiro de uma casa, essa espécie de artefato se configura por meio de um sistema misto de plástico e metal, que consiste numa boia e numa válvula de passagem. Mas essa estrutura específica poderia ser modificada, substituindo-se o plástico por madeira, sem alterar o fato de que ela continuaria a ser uma descarga — destacamos.15

Por sua vez, não nos olvidemos que “todos os seres vivos multicelulares conhecidos são variações elaboradas sobre o mesmo tema — a organização e a filogenia da célula”.16 E ainda que “... cada célula contém a totalidade do patrimônio genético do conjunto do corpo, o que significa que o todo está também na parte...”.17 (Grifamos). Desse modo, a menção à organização autopoiética de uma única célula, ou de um organismo monocelular como a bactéria, mutatis mutandis, vale, igualmente, para o ser humano.

Por outro lado, os seres vivos constituem uma classe que se caracteriza pela sua organização autopoiética, ou seja, pela capacidade de “... produzirem de modo contínuo a si próprios. [...] O metabolismo celular produz componentes e todos eles integram a rede de transformações que os produzem”.18 Assim,

“... não há separação entre produtor e produto. O ser e o fazer de uma unidade autopoiética são inseparáveis...”.19 Os seres vivos são unidades autônomas, ou seja, eles são capazes de especificar sua própria legalidade, aquilo que lhes é próprio. A propósito, Fritjof Capra ensina:

Auto, naturalmente, significa “si mesmo” e se refere à autonomia dos sistemas auto-organizadores, e poiese — que compartilha da mesma raiz grega com

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a palavra “poesia” — significa “criação”, “construção”. Portanto, autopoiese significa “autocriação”.20

Outro conceito importante é o de membrana, considerada a fronteira que possibilita o metabolismo celular. Ela “... não apenas limita a extensão da rede de transformações que produz seus componentes, como também participa dela”. Caso não houvesse a membrana, “... o metabolismo celular se desintegraria numa sopa molecular, que se espalharia por toda parte e não constituiria uma unidade separada como célula”. O metabolismo (dinâmica) e a membrana (fronteira) não constituem...

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