Reformas urbanas, política de saneamento, economia e interesses político-corporativos em salvador na república velha

AutorJoaci de S. Cunha
CargoPós-doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas e Cidadania (UCSal)
Páginas371-402
Cadernos do CEAS, Salv ador/Recife, n. 247, p. 371-402, ma i./ago., 2019 | ISSN 2447-861X
REFORMAS URBANAS, POLÍTICA DE SANEAMENTO, ECONOMIA E
INTERESSES POLÍTICO-CORPORATIVOS EM SALVADOR NA
REPÚBLICA VELHA
Urban reforms, sanitation policy economy and political corporate interests in
Salvador in the old republic
Joaci de S. Cu nha (IFCH-UCSAL)
Informações do artigo
Recebido em 30/05/2019
Aceito em 03/07/2019
doi>: https://doi.org/10.25247/2447-861X.2019.n247.p371-402
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Commons Atribuição 4.0 Internacional.
Como ser citado (modelo ABNT)
CUNHA, Joaci de S. Reformas urbanas, política de
saneamento, economia e interesses político-
corporativos em Salvador na república velha. Cadernos
do CEAS: Revista Crítica de Humanidades, Salv ador, n.
247, mai./ago., p. 371-402, 2019. DOI:
https://doi.org/10.25247/2447-861X.2019.n247.p371-402
Resumo
Este artigo discute o saneamento básico e o abastecimento de
água em Salvador durante a República Velha pari passu com as
ideias h igienistas e supostamente modernizantes da classe
dominante no períod o, evide nciando a enorme distância
existente entr e o discurso sanitarista e a saúde pública. E,
princi palmente, explora as relaçõe s entre as cor porações
capitalistas e a polí tica baiana, expondo o labirinto das opções
relativas às re formas urbanas realizadas em Salvador, entre
1905 e 1928. Arquivos j udiciais, mensagens ofic iais, jornais e
uma gama variada de fontes são empregados para correlacionar
as din âmicas econômica e urbana, opções polí ticas, e alianças
corporativas dos blocos de poder, articulando-as aos processos
de saneamento, reformas urbanísticas e suas implicações para a
economia baiana.
Palavras-chave: Reforma u rbana saneamento. Política e
economia baianas. Política e corporações.
Abstract
This articl e discusses basic sanitation and wate r supply in
Salvador during the Old Republic pari passu the hygienist and
supposedly modernizing ideas of the ruling class in the period,
highli ghting the enormous gap between the sanitary discourse
and public health. And, mainly, it explores the relations between
capitalist corporations and Bahia politics, exposing the labyrinth
of options related to urban re forms carrie d out in Salvador
betwee n 1905 and 1928. Judicial archives, of ficial messages,
newspapers and a wide range of sources are used to cor relate
the e conomic and urban dynamics, poli tical options, and
corporate alliance s of power blo cs, articu lating them t o
sanitation processes, urban re forms and their impl ications for
the Bahia economy.
Keywords: Urban r eform sanitation. Bahian polit ics and
economy. Politics and corporations
Introdução e contexto histórico
Na ci dade do Salvador da segunda metade d o século XIX ob servam-se várias
iniciativas de atualização da sua infraestrutura urbana. Essas mudanças avançam no ritmo do
crescimento econômico da Província, capit aneadas pelo grande comércio de exportação de
produto s agro-minerais e importação de mercadorias de todo tipo.
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Impulsionada po r vários asp ectos político s e financeiros, que animaram os
investimentos nes se quadrante de século, a eco nomia baiana passo u p or ampla
diversificação. Dois deles foram especialment e i mportantes. O p rimeiro decorre da
dispo nibilidade de capitais após o fim do tráfico africano. O segundo, da liberdade de emissão
bancária em duas conjunturas dis tintas (1857-1860 e 1889-1894), que facilitou a proliferação
de di versas iniciat ivas empresariais, dest acando-se a criação de indúst rias têxteis, de velas,
bebidas , fósforos etc., de ferrovias, de instituições e casas bancárias diversas. A partir de 1860
foram inaugurados trech os s ucessivos da Ferrovia Bah ia ao São Francisco, interlig ando
Salvador ao sertão . A cida de demandou, a partir daí, o surgimento de um si stema d e
transportes urbanos, que o capit al privado local não teve dificuldad es em organizar.
Salvador, que, no alvorecer do século XIX, p ossuía uma populaçã o de
aproximadamente 50 mil habi tantes, entre 1869 e 1873 ap resentava um número de
moradores nada desprezível em torno de 129 mil p essoas. Com a dinamização do mercado
local, durante a última décad a d os d ezenove, a p opulação da cidade crescia em ritmo
acelerado. De 174 mil s oteropolitanos , em 1890, saltou para 205 mil, dez anos d epois, o que
equivalia a um crescimento vegetativo anual médio de 2,63%, ou 26,31% no período . Em
compass o semelhante cresceram o s negócios . Avançavam as exportaçõ es, a formação de
empresas e bancos. A cid ade acompanhou esse processo empreendendo uma série de
mudanças e atualizações em seu traçado e configuração espacial , e implementou diversos
melhoramentos em infraestrutura geral.
Vistas em conjunto, tais mudanças encontram co rrespondência no des envolvimento
do est ado e dependeram, não só da po lítica-adminis trativa e de alianças dos governantes,
mas, t ambém, dos cicl os de cresci mento da economia a gro-exportadora l ocal e,
eventualmente, da disponibi lidade de cap ital estrangeiro para complementar as receitas
públicas e os investimentos privados.
1
A p artir de um enquadramento d e maior duração, é
poss ível melhor visualizar e compreender o processo de retifi cação e ampliação urbanas
vivenciadas em Salvador. Processo que não é privilégio de um único governo ou período, mas
um contínuo de ações que perpass am décadas de iniciativas transformadoras.
1
O ramo da iluminação p ública e particular e ra monopólio das em presas inglesas no último quarto do séc. XIX.
Em fins de ste, foram adquiridas pe la The Bah ia Light and Power Company (GAULD, 2 006).
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Desse mod o, desde, pelo menos, meados do século XIX
2
são muitos os exemplos de
reformas e ob ras marcantes pa ra a formação d a própria identidad e d e Sal vador. A
urbanização do vale do Campo Grande e o início da ocupação da Vitória datam da década de
1850; a abertura da Rua da Vala atual J. J. Seabra, sobre o rio das Tripas abriu um novo vetor
de expansã o para a cidade
3
; as demolições de prédios his tóricos (Casa da Moeda e Casa da
Relação Cível na Praça do Palácio e Misericórdia) resultaram no completo redesenho da Praça
do Palácio (Pç. Municipal); as ligações entre os dois níveis geoló gicos da cidad e por planos
inclinados e elevadores; a abertura de vias de lig ação entre a ci dade alta e cidade baixa, a
exemplo da Ladeira da Montanha.
O mesmo se pode dizer da infraestrutura urbana. Houve canalização, em 1862, de gás
para iluminação pública e p articular, e o ab astecimento de água foi introduzid o pela
Companhia d o Queimado . A ci rculação de pes soas e mercadorias foi facilitada pela
interligação d os tramways (b ondes) ao sis tema ferroviário e ao po rto. Não tardo u o
estabel ecimento de linhas de bo ndes a li gar tod o sítio urbano
4
, articulando o centro aos
bairros, inclusive os proletários e as zonas de veraneio. O process o de eletrificação das linhas
ocorreu de 1897 a 1906 e, nessa trilha, a energia elétrica chegou t ambém aos p rincipais
bairros da cidade
5
. A iluminação a gás foi, ass im, substi tuída progressivamente. Também se
implantou a rede telefônica, so mando-s e à rede telegráfica conecta da mundialmente por
cabos submarinos.
As reformas do porto, ocorridas entre 1906 e 1921, se inserem num conjunto de
aterros e urbanização de quarteirões tomados ao mar, alinhamento de ruas (p or demolição
de casario), proces so esse verificado praticamente ao lo ngo de tod a trajetó ria da zona
comercial, que s e acentua nas últimas décad as do s éculo dezenove ( CÂMARA, 1989,
2
Morrison (1989), Mattoso (199 4), Sampaio (2 000), Pinheiro (2 002).
3
A canalização do Rio das Tripas, e ntre a Barroquinha - antiga Hortas -, e a Sete Portas, foi resultado de ações
sucessivas iniciadas após as epide mias de febre amarela (1849 -1854) e de cólera (1855-1856), que produziram
resultados trágicos e forçaram iniciativas de saneame nto. Somente a epidemia de cólera c eifou cerca de 10
mil vidas. Esse rio servia de escoadouro, a céu aberto, dos e sgotos de boa parte do Distrito da Sé. Sua
canalização e pavimentação, além do caráter sane ador, resultaram no surgimento da Rua da Vala. Por ela as
linhas de bondes seguiriam e m direção a sete Portas, B aixa de Quintas e, mais tarde, B rotas e Cabula
(MENSAGENS ... de 1869 a 1874).
4
Em 1873, ent rava em vigor regulamento especial p ara as empresas de "bo nds" da cidade, através de ato do
então Presidente da Província da Bahia, Dr. Almeida Cou to. (Quadro - Linhas em operação e m 187 3). A
municipalidade buscava, assim, regu lar a divisão das linhas das e mpresas concessionárias em seções.
5
Stiel (1984), Morrison (1989), Teixeira (20 05).

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