A radicalidade transformadora da diferença. Uma leitura situada de alguns textos do feminismo italiano

Autor:Mariateresa Muraca - Rosanna Cima
Cargo:Doutora em em Ciências da Educação e da Formação Contínua pela Università degli Studi di Verona, Itália - Doutora em Educação pela Università degli Studi di Verona, Itália
Páginas:246-261
RESUMO

O artigo propõe uma leitura de alguns textos das feministas italianas - principalmente de Carla Lonzi e das filósofas da Comunidade Diotima -, com o intuito de argumentar em favor de uma compreensão da diferença feminina aberta e radicalmente transformadora.

 
TRECHO GRÁTIS
http://dx.doi.org/10.5007/1807-1384.2015v12n2p246
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Adaptada.
A RADICALIDADE TRANSFORMADORA DA DIFERENÇA. UMA LEITURA
SITUADA DE ALGUNS TEXTOS DO FEMINISMO ITALIANO
1
Mariateresa Muraca
2
Rosanna Cima
3
Resumo
O artigo propõe uma leitura de alguns textos das feministas italianas
principalmente de Carla Lonzi e das filósofas da Comunidade Diotima , com o
intuito de argumentar em favor de uma compreensão da diferença feminina aberta e
radicalmente transformadora.
Palavras-chave: Carla Lonzi. Diotima. Feminismo. Diferença.
1 PREMISSAS: DE ONDE ESCREVEMOS
Este artigo baseia-se em uma proposta de diálogo entre diferentes.
Primeiramente o diálogo envolve as autoras, mulheres de gerações diversas e de
várias procedências geográficas, que se encontraram num certo ponto de suas
trajetórias de vida e que, na reflexão comum, colocam em jogo interesses e
posicionamentos nem sempre convergentes. Além disso, os esforços que orientam a
escrita concernem à possibilidade de estabelecer uma comunicação entre alguns
textos do feminismo italiano da diferença uma perspectiva encarnada em práticas
políticas e localizada em contextos específicos com interlocutoras e interlocutores
de outros lugares, principalmente brasileiros. Que relevância pode ter um feminismo
branco e europeu em relação aos desafios que atravessam a realidade brasileira?
Quais os riscos de confirmar os rumos consolidados da “geopolítica do
1
Agradecemos ao Prof. Selvino Assmann por ter encorajado muito a elaboração desse artigo, pelas
sugestões em relação aos conteúdos e pela revisão das traduções. Agradecemos também a Daniele
Manfrini pela colaboração na revisão.
2
Doutora em em Ciências da Educação e da Formação Contínua pela Università degli Studi di
Verona, Itália, em co-tutela com a Universidade Federal de Santa Catarina (Programa de Pós-
Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas), Florianópolis, SC, Brasil. E-mail:
mariateresa.muraca@univr.it
3
Doutora em Educação pela Università degli Studi di Verona, Itália. Professora adjunta de Pedagogia
da Mediação Cultural, Educação de Adultos e Pedagogia Sanitária na Università degli Studi di Verona,
Verona, Itália. E-mail: rosanna.cima@univr.it
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R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.12, n.2, p.246-261, Jul-Dez. 2015
conhecimento” (MIGNOLO)
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que apresenta esta tentativa de criar conexões de
pensamento? São perguntas essenciais que nos guiam e nos interrogam no
decorrer da elaboração deste artigo.
Por outro lado, é importante situar as cincunstâncias nas quais surgiu o
desejo de nos propormos a uma leitura de alguns temas do feminismo italiano. A
circunstância é um percurso político e de pesquisa que envolveu uma de nós junto
ao Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). O MMC surgiu em Santa Catarina
em 1983 com o nome de Movimento de Mulheres Agricultoras e se consolidou como
movimento nacional em 2004, interligando organizações de diferentes estados do
Brasil. Em particular a pesquisa de doutorado realizada por Mariateresa com o MMC
em Santa Catarina, de 2011 até 2015, focava as práticas pedagógicas do
movimento, com atenção específica às práticas agroecológicas e seus
desdobramentos educativos em um sentido feminista e decolonial. Nos últimos anos,
de fato, a agroecologia se firmou como o núcleo central das lutas do MMC, se
articulando, no interior do movimento, com uma crescente consciência e
autoidentificação feminista.
Ao longo do caminho da pesquisa, foi possível observar que as militantes
envolvidas evocavam a diferença sexual para motivar o compromisso das mulheres
com a agroecologia. A interpretação destas práticas discursivas como expressão
tout court de uma posição essencialista interpretação prevalente por parte de
estudiosas sobre o MMC/SC , todavia, parecia-nos não captar a dimensão
desconstrutiva dos papéis sociais femininos, presente nas lutas e na mística do
MMC/SC e, sobretudo, nas trajetórias de vida de suas militantes (MURACA, 2015).
A preocupação em valorizar adequadamente essas rupturas e a consciência de que
as teorias funcionam como “óculos filtrantes” (CIMA, 2012), que frequentemente
negam o acesso a importantes níveis da realidade, motivaram a busca por
perspectivas que fundamentassem uma visão complexa, processual e
transformadora da diferença. Nesta ótica, se revelaram muito férteis algumas
ferramentas teóricas do feminismo italiano da diferença, um pensamento com um
preciso lugar de enunciação e não hegemônico no panorama global dos feminismos.
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Disponível em www.ram-wan.net

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