Qual a influência da gestão familiar no custo de financiamento da dívida? Análise em companhias com estrutura de propriedade familiar

Autor:Geovanne Dias de Moura - Jovani Lanzarin - Sady Mazzioni - Francisca Francivânia Rodrigues Ribeiro Macêdo
Cargo:Doutor em Ciências Contábeis e Administração (FURB) - Mestre em Ciências Contábeis e Administração (UNOCHAPECÓ), Chapecó/SC, Brasil - Doutor em Ciências Contábeis e Administração (FURB) - Doutora em Ciências Contábeis e Administração (FURB)
Páginas:71-87
RESUMO

O estudo verificou a influência da gestão familiar no custo de financiamento da dívida de companhias com estrutura de propriedade familiar. Realizou-se pesquisa descritiva, quantitativa e documental, com consulta aos Formulários de Referência, banco de dados Economática e site da B3, utilizando-se de dados de 2012 a 2016. As companhias foram classificadas como familiares quando o último acionista ... (ver resumo completo)

 
TRECHO GRÁTIS
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Artigo
Original
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Revista Contemporânea de Contabilidade, Florianópolis, v. 17, n. 43, p. 71-87, abr./jun., 2020.
Universidade Federal de Santa Catarina. ISSN 2175-8069. DOI : https://doi.org/10.5007/2175-8069.2020v17n43p71
Qual a influência da gestão familiar no custo de
financiamento da dívida? Análise em companhias com
estrutura de propriedade familiar
What is the influence of family management on the cost of debt financing? Analysis in companies
with family ownership structure
¿Cuál es la influencia de la gestión familiar en el costo de la financiación de la deuda? Análisis en
compañías con estructura de propiedad familiar
Geovanne Dias de Moura*
Doutor em Ciências Contábeis e Administração (FURB)
Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências
Contábeis e Administração (UNOCHAPECÓ),
Chapecó/SC, Brasil
geomoura@terra.com.br
http://orcid.org/0000-0003-0900-5249
Sady Mazzioni
Doutor em Ciências Contábeis e Administração (FURB)
Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências
Contábeis e Administração (UNOCHAPECÓ),
Chapecó/SC, Brasil
sady@unochapeco.edu.br
http://orcid.org/0000-0002-8976-6699
Jovani Lanzarin
Mestre em Ciências Contábeis e Administração
(UNOCHAPECÓ), Chapecó/SC, Brasil
jovani87@gmail.com
https://orcid.org/0000-0002-2987-4065
Francisca Francivânia Rodrigues Ribeiro Macêdo
Doutora em Ciências Contábeis e Administração (FURB)
Professora Adjunta da Universidade Estadual Vale do
Acaraú (UVA), Sobral/CE, Brasil
francymacedo2011@gmail.com
https://orcid.org/0000-0002-7387-9939
Endereço do contato principal para correspondência*
Avenida Senador Attílio Fontana - Servidão Anjo da Guarda, 295-D - Bairro Efapi, CEP: 89809-900 – Chapecó/SC, Brasil
Resumo
O estudo verificou a influência da gestão familiar no custo de financiamento da dívida de companhias com
estrutura de propriedade familiar. Realizou-se pesquisa descritiva, quantitativa e documental, com consulta
aos Formulários de Referência, banco de dados Economática e site da B3, utilizando-se de dados de 2012 a
2016. As companhias foram classificadas como familiares quando o último acionista controlador era uma
família. Para identificar o tipo de gestão investigou-se a participação das famílias na diretoria executiva e no
conselho de administração. O custo da dívida foi calculado pela razão entre despesas financeiras e passivo
oneroso médio. Constatou-se que as variáveis que captavam a existência de gestão familiar eram
estatisticamente significantes e com coeficientes negativos, denotando que a gestão familiar influenciava para
redução do custo de financiamento da dívida. Assim, a pesquisa adiciona contribuições para a literatura com
evidências empíricas relativas ao cenário brasileiro, ainda carente de pesquisas dessa natureza.
Palavras-chave: Gestão familiar; Custo de financiamento da dívida; Estrutura de propriedade familiar
Abstract
The study verified the influence of family management on the debt cost of companies with family ownership
structure. A descriptive, quantitative and documentary research was carried out, with reference to the
Reference Forms, Economática database and B3's website, using data from 2012 to 2016. The companies
were classified as relatives when the last controlling shareholder was a family. To identify the type of
management, the participation of the families in the executive board and the board of directors was
investigated. The cost of debt was calculated by the ratio of financial expenses to average onerous liabilities.
It was found that the variables that captured the existence of family management were statistically significant
and with negative coefficients, denoting that family management influenced to reduce the cost of debt
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Revista Contemporânea de Contabilidade, Florianópolis, v. 17, n. 43, p. 71-87, abr./jun., 2020.
Universidade Federal de Santa Catarina. ISSN 2175-8069. DOI : https://doi.org/10.5007/2175-8069.2020v17n43p71
financing. Thus, the research adds contributions to the literature with empirical evidence regarding the Brazilian
scenario, still lacking in research of this nature.
Keywords: Family management; Cost of debt financing; Family owned structure
Resumen
Se verificó la influencia de la gestión familiar en el costo de financiamiento de la deuda de compañías con
estructura de propiedad familiar. Investigación descriptiva, cuantitativa y documental en el período de 2012 a
2016. Las compañías fueron clasificadas como familiares cuando el último accionista controlador era familiar.
Para identificar el tipo de gestión se investigó la participación de las familias en la dirección ejecutiva y en el
consejo de administración. El coste de la deuda se calculó por la razón entre los gastos financieros y el pasivo
oneroso medio. Se constató que las variables que captaban la existencia de gestión familiar eran
estadísticamente significantes y con coeficientes negativos, denotando que la gestión familiar influía para
reducir el costo de financiamiento de la deuda. Así, la investigación añade contribuciones a la literatura con
evidencias empíricas relativas al escenario brasileño, aún carente de investigaciones de esa naturaleza.
Palabras clave: Gestión familiar; Costo de financiación de la deuda; Estructura de propiedad familiar
1 Introdução
As empresas financiam seus ativos por meio de uma combinação entre capital próprio e capital de
terceiros, sendo que este mix é denominado de estrutura de capital. De modo geral, os capitais próprios são
os recursos fornecidos pelos sócios ou acionistas, enquanto os capitais de terceiros envolvem os recursos
obtidos por meio de dívidas (financiamentos bancários, debêntures, bonds, etc.) (ARDALAN, 2017; LE; BICH,
2017). Em relação à estrutura de capital, diversos autores, a exemplo de Shailer e Wang (2015), Derrien,
Kecskés e Mansi (2016), Ardalan (2017), Ghouma, Ben-Nasr e Yan (2017) e Le e Bich (2017), destacam que
o custo do capital próprio é maior do que o custo da dívida. Isso ocorre porque os acionistas das empresas
sempre recebem os dividendos depois que os credores da dívida recebem os seus juros, seja quando a
empresa está em operação ou quando está em estado de falência. Portanto, os acionistas estão expostos a
um maior nível de risco do que os credores da dívida e, consequentemente, exigirão uma maior taxa de
retorno, o que significa um maior custo (ARDALAN, 2017).
O uso da dívida possui muitas vantagens em relação ao capital próprio. Em primeiro lugar, as
empresas se beneficiam com os aspectos fiscais, haja vista que os impostos sobre o resultado são calculados
depois que os juros são pagos aos credores. Em segundo lugar, as dívidas podem desempenhar um papel
de monitoramento interno, pois as empresas mais alavancadas tendem a prestar mais atenção às reações
dos mercados de dívida. Terceiro, a dívida pode sinalizar confiança dos credores ao mercado, de modo geral,
levando a menores custos de financiamentos futuros (GHOUMA; BEN-NASR; YAN, 2017).
Assim, os financiamentos formais são uma forma importante que as empresas, principalmente de
países emergentes, possuem para obter recursos, visto que nesses países o mercado acionário tende a ser
pouco desenvolvido (SHAILER; WANG, 2015). Destaca-se que esse é o cenário do Brasil, um país code-law
(direito codificado), com mercado de ações em desenvolvimento e com proteção legal dos direitos de
propriedade significativamente mais baixos do que em mercados mais desenvolvidos, como Estados Unidos
e Reino Unido (common-law). Isso implica que as ações das empresas tendem a apresentar riscos mais
elevados (IATRIDIS, 2012; MOURA, 2014).
Diferente de países como os Estados Unidos, Japão e Reino Unido, por exemplo, onde a propriedade
acionária das empresas é dispersa, na maioria dos outros países, sejam desenvolvidos ou em
desenvolvimento, a propriedade acionária ainda está concentrada em famílias (SIREGAR; UTAMA, 2008;
FAN; WEI; XU, 2011; MOURA, 2014). Conforme descreve Moura (2014), este cenário é observado na
literatura que aborda o tema, principalmente a partir do estudo de La Porta, Lopez-de-Silanes e Shleifer
(1999), que analisaram a estrutura de controle em 27 países e verificaram que a estrutura de propriedade
familiar era um tipo dominante entre as companhias abertas.
A partir do papel importante que as empresas familiares desempenham no desenvolvimento e
crescimento econômico dos países, pesquisadores têm investigado a influência das famílias na composição
da estrutura de capital das empresas (GONZÁLEZ et al., 2013; HAMID; ABDULLAH; KAMARUZZAMAN,
2015; DÍAZ-DÍAZ; GARCÍA-TERUEL; MARTÍNEZ-SOLANO, 2016). E, em razão da importância da dívida,
mais especificamente, as investigações também têm abordado a influência das famílias no custo de
financiamento da dívida das empresas (TANAKA, 2014; HASHIM; AMRAH, 2016; MA; MA; TIAN, 2017).
Em relação à influência das famílias no custo da dívida, pesquisadores têm argumentado que as
famílias são um tipo de agente mais interessado na sobrevivência das empresas, pois, muitas vezes, detêm
carteiras de investimento não diversificadas, no comparativo com outros tipos de acionistas. Também são
investidores que procuram passar a empresa aos herdeiros, ou seja, as famílias consideram suas empresas
como um legado a ser repassado para gerações futuras e não como uma riqueza para ser consumida durante
suas vidas. Assim, os incentivos exclusivos das famílias sugerem que esse tipo de acionista pode reduzir
conflitos de agência com os fornecedores da dívida. Logo, empresas familiares apresentariam menores custos

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