Política externa brasileira, modelo de desenvolvimento e coalizões políticas (1930-2016)

Autor:Tiago Nery
Cargo:Doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) e membro da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Estado do Rio de Janeiro (EPPGG). Está vinculado à Subsecretaria de Relações Internacionais do Estado do Rio de Janeiro E-mail:...
Páginas:164-190
RESUMO

O artigo analisa as relações entre a política externa brasileira, o modelo de desenvolvimento econômico e as coalizões políticas entre 1930 e 2016. A primeira seção destaca a importância da dimensão doméstica da política externa, que é influenciada por valores e ideias de diferentes atores, a exemplo dos partidos políticos. A segunda seção analisa duas ideias-força que historicamente... (ver resumo completo)

 
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Cadernos do CEAS, Salvador/Recife, n. 241, p. 418-444, mai./ago., 2017 | ISSN 2447-861X
POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA, MODELO DE
DESENVOLVIMENTO E COALIZÕES POLÍTICAS (1930-2016)
Brazilian foreign policy, development model and political coalitions (1930-
2016)
Tiago Nery
Doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos
Sociais e Políticos da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (IESP-UERJ) e membro da
carreira de Especialista em Políticas Públicas e
Gestão Governamental do Estado do Rio de Janeiro
(EPPGG).
Está vinculado à Subsecretaria de Relações
Internacionais do Estado do Rio de Janeiro
E-mail: tiagonnery@gmail.com
Informações do artigo
Recebido em 06/04/2017
Aceito em 26/05/2017
Resumo
O artigo analisa as relações entre a política externa
brasileira, o modelo de d esenvolvimento econômico
e as coalizões políticas entre 1930 e 2016. A primeira
seção destaca a importância da dimensão doméstica
da política externa, que é influenciada por valores e
ideias de diferentes atores, a exemplo dos partidos
políticos. A segunda seção analisa duas ideias-força
que historicamente caracterizaram a política externa
brasileira: autonomia e desenvolvimento. Apesar da
importância de ambas, durante o nacional-
desenvolvimentismo a busca do desenvolvimento
tornou-se o principal vetor da política exterior do
país. A terceira seção analisa o governo Fernando
Henrique Cardoso, destacando as relações entre as
reformas econômicas, a coalizão política e a política
externa. Na última seção, são analisados os governos
Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Esses
governos se apoiaram em coalizões heterogêneas,
ensaiaram uma política neodesenvolvimentista e
adotaram uma política externa mais autônoma. A
mudança na conjuntura internacional contribuiu para
interromper os governos liderados pelo Partido dos
Trabalhadores. Na conclusão, destacam-se a
influência do modelo de desenvolvimento e das
coalizões políticas na orientação da política externa
brasileira.
Palavras-chave: Política externa brasileira.
Desenvolvimento. Coalizões.
Introdução
Este artigo pretende analisar as relações entre a política externa brasileira, o modelo
de desenvolvimento e as coalizões políticas entre 1930 e 2016, destacando-se o período
nacional-desenvolvimentista, o governo Fernando Henrique Cardoso, o governo Luís Inácio
Lula da Silva e o primeiro mandato de Dilma Rousseff, além de mencionar a ruptura
institucional ocorrida no início do seu segundo mandato. O texto está dividido em quatro
seções, além da introdução e da conclusão.
A primeira seção analisa a importância da dimensão doméstica da política externa,
que está situada na fronteira da política doméstica com a política internacional. Por um lado,
trata-se de uma política pública gerada no interior do Estado. Por outro, a política externa
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também está condicionada à ordem assimétrica em que está inserida. Assim, para além da
dimensão sistêmica, a política externa também é influenciada por valores e ideias de
diferentes atores, a exemplo dos partidos políticos. Para analisar essas inter-relações, são
utilizadas abordagens como a análise de política externa e a teoria da política burocrática,
responsáveis pelo esforço de integração entre os níveis doméstico e internacional da política
exterior.
Na segunda seção, são analisadas as relações entre a política externa brasileira e as
ideias de autonomia e desenvolvimento. O significado concreto desses dois eixos explicativos
tem variado de acordo com o sistema internacional e as coalizões políticas domésticas. As
conjunturas críticas enfrentadas pelo Brasil no século XX transformaram profundamente os
vínculos entre a política exterior, o modelo de desenvolvimento e o conceito de autonomia.
A terceira seção trata das relações entre as políticas doméstica e externa do governo
Fernando Henrique. O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) esteve à frente de uma
coalizão liberal-conservadora que procurou restaurar a credibilidade do país através da
implementação de políticas econômicas neoliberais e da adesão a regimes internacionais.
Desse modo, o governo Fernando Henrique buscou obter as credenciais tidas como
necessárias para que o Brasil pudesse inserir-se em condições favoráveis no cenário global.
A quarta seção analisa a política neodesenvolvimentista e a política exterior dos
governos Lula e Dilma. Os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) lideraram uma
coalizão heterogênea que envolveu setores da burguesia e segmentos organizados e
desorganizados das classes trabalhadoras. Nesse período, a política externa reincorporou
metas de desenvolvimento e priorizou as coalizões Sul-Sul e a integração sul-americana.
Todavia, mudanças na conjuntura internacional e o acirramento dos conflitos distributivos
provocaram uma crise política e institucional com reflexos na política externa.
Na conclusão, destaca-se a influência da dimensão doméstica, sobretudo do modelo
de desenvolvimento e das coalizões políticas, na orientação da política externa brasileira.
As relações entre a política externa e a dimensão doméstica
As relações internacionais e a política doméstica possuem diversas imbricações.
Apesar de não serem idênticas e possuírem características próprias, as duas esferas são
sobrepostas. Nesse sentido, o interno e o externo devem ser vistos como duas extremidades

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