Política, Ciência e Mundo das Redes

Autor:Ricardo Colturato Festi
Cargo:Doutorado em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Professor Adjunto do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB)
Páginas:383-388
 
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R. Katál., Florianópolis, v. 23, n. 3, p. 383-385, set./dez. 2020 ISSN 1982-0259
Política, Ciência e Mundo das Redes
383DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1982-02592020v23n3p383
© O(s) Autor(es). 2020 Acesso Aberto Esta obra está licenciada sob os termos da Licença Creative Commons
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EDITORIAL
Se Max Weber pudesse, por algum milagre, analisar as duas primeiras décadas do século XXI,
ficaria intelectualmente instigado com o grau de irracionalismo da “política” contemporânea. Se essa
versão encarnada do autor alemão fosse aquela associada ao romantismo e ao pessimismo cultural, ele
teria a certeza de que a sua metáfora da jaula de ferro se confirmara em sua forma mais radical. A
racionalidade burocrática – que, na concepção do autor, representaria uma das singularidades do capita-
lismo em relação aos outros sistemas – parece dividir espaço, sem contradições, com a irracionalidade. A
racionalidade, forma moderna de dominação, teria produzido a reificação das relações sociais e ao desen-
cantamento do mundo. Nesse sentido, Weber estaria de acordo com Marx de que o capitalismo moderno
é um universo em que os indivíduos são dirigidos por abstrações, “em que relações impessoais e coisificadas
substituem as relações pessoais de dependência e em que a acumulação do capital se torna um fim em si,
amplamente irracional” (LÖWY, 2014, p. 18).
Habermas (1980) nos lembra que Weber introduziu o conceito de “racionalidade” a fim de determinar a
forma da atividade econômica no capitalismo, das relações de direito privado burguesas e da dominação
burocrática. A racionalização progressiva da sociedade estaria ligada a secularização e a institucionalização do
progresso científico e técnico. À medida em que a técnica e a ciência penetram nas estruturas da sociedade, as
antigas formas de legitimação das instituições tradicionais desmoronam. Portanto, muito distante de um Weber
estrutural-funcionalista criado por Parsons, o autor alemão, por meio de sua influência no jovem Lukács,
impactou na tradição da Teoria Crítica, em particular no conceito de razão instrumental.
O que assistimos hoje senão a exacerbação dessa razão instrumental, isto é, da utilização da ciência e da
técnica enquanto forma de produção e reprodução da ordem do capital? Como não encontrar nas disseminadas
tecnologias de informação e comunicação uma profunda abstração das relações sociais, que intensificam ainda
mais aquilo que Marx chamou de fetichismo da mercadoria? A cada dia, mais e mais máquinas se autogovernam
e se comunicam entre si – como é o caso, por exemplo, da “Internet das Coisas” –, aumentando o pessimismo
quanto às saídas emancipatórias.
Se as utopias revolucionárias parecem terem sido temporariamente derrotadas após o fim das socieda-
des pós-capitalistas, no final dos anos 1980, as utopias reacionárias ganharam projeções incalculáveis, associ-
adas ao pensamento religioso e disseminadas pelos meios informacionais-digitais. Como observa Lukács, as
utopias reacionárias que visam restaurar uma condição passada, não podem deixar de ter um caráter essenci-
almente irracionalista. Esta visão de mundo só consegue superar as antinomias fundadas numa negação da
ratio de modo pseudodialético, sofistico (LUKÁCS, 2012).
Há muito tempo que a humanidade deixou de encontrar refúgio no projeto Iluminista. Fruto da ascensão
da sociedade burguesa, seu caráter progressista foi ultrapassado pela própria decadência e degeneração do
capitalismo, o que confirmam as análises da Teoria Crítica. Como ressalta Habermas sobre a concepção de
Marcuse acerca do caráter inconfessado da dominação política da razão instrumental, ela

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