Perigoso, mas gostoso: representações sociais do barebacking em Florianópolis

Autor:Andréia Isabel Giacomozzi, Nilceia Antunes, Kely Vieira Meira, Beatriz Pires Coltro
Páginas:194-212
RESUMO

Realizou-se estudo quantitativo qualitativo e descritivo com 144 pessoas em locais frequentados pela população LGBT, objetivando investigar representações sociais do barebacking, comportamentos de risco, atitudes frente o uso do preservativo e conhecimento sobre HIV/Aids. Os dados foram analisados com auxílio dos softwares SPSS e SPAD. O grupo apresentou bom conhecimento sobre HIV/Aids,... (ver resumo completo)

 
TRECHO GRÁTIS
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GIACOMOZZI, Andréia Isabel et al. Perigoso, mas gostoso: representações sociais do barebacking em...
Realizou-se estudo quantitativo qualitativo
e descritivo com 144 pessoas em locais
frequentados pela população LGBT, objetivando
investigar representações sociais do barebacking,
comportamentos de risco, atitudes frente o uso
do preservativo e conhecimento sobre HIV/
Aids. Os dados foram analisados com auxílio dos
softwares SPSS e SPAD. O grupo apresentou bom
conhecimento sobre HIV/Aids, posicionamento
favorável ao uso do preservativo e alta porcentagem
de participantes já realizaram teste anti-HIV
(65,7%). O uso consistente do preservativo foi
declarado por 45,3% e 27,2% declarou que já
fez barebacking. O principal motivo para a não
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parceiro. Surgiram representações do barebacking
ligadas ao arrependimento e promiscuidade, porém o
prazer foi elemento importante nesta representação.
Palavras-chave: Barebacking, HIV, vulnerabilidade,
LGBT.
This is a quantitative-qualitative and
descriptive study with 144 people in locations
frequented by the LGBT community, aiming to
investigate social representations of barebacking,
risk behaviors, attitudes toward condom use
and knowledge about HIV/AIDS. Data were
analyzed using SPSS and SPAD. The group had
a good knowledge about HIV/AIDS, was in favor
of condom use and a high percentage of the
participants have already done HIV test (65.7%).
Consistent condom use was declared by 45.3%,
and 27.2% stated that have done barebacking. The
main reason for not using condoms was trust in
the partner. There were found representations of
barebacking linked to repentance and promiscuity,
but the pleasure was an important element in this
representation.
Keywords: Barebacking, HIV, vulnerability, LGBT.
Introdução
Estudos vêm alertando (FURNARI, 2003; ANDRADE et al., 2007), a
respeito da especial vulnerabilidade dos homens que fazem sexo com homens
(HSH) às DST/HIV/Aids. No Brasil, a transmissão sexual do HIV responde
por grande parte dos casos de aids. Segundo o banco de dados do Ministério
da Saúde, entre 1990 e 1999, a via sexual esteve relacionada a contatos entre
homens que fazem sexo com homens em 48% dos casos1. Entre estes, 63,5%
deles declararam-se infectados por exclusivo contato sexual entre homens.
De acordo com a pesquisa PCAP-BR (BRASIL, 2004) realizada sobre
atitudes e práticas da população brasileira, a população de gays e outros HSH
1 http://www.aids.gov.br
Perigoso mas gostoso: representações sociais do barebacking em
Florianópolis
Dangerous but pleasurable: social representations of barebacking in
Florianopolis
http://dx.doi.org/10.5007/2178-4582.2017v51n1p194
Andréia Isabel Giacomozzi, Beatriz Pires Coltro e Kelly Vieira Meira
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis/SC, Brasil
Nilceia Antunes
Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis/SC, Brasil
195
Revista de Ciências HUMANAS, Florianópolis, v. 51, n. 1, p. 194-212, jan-jun 2017
de 15 a 49 anos de idade foi estimada em 3,2%, representando cerca de 1,5
milhões de pessoas. Com essa estimativa de base populacional dos HSH
calculou-se a incidência de aids nesse segmento, que foi estimada em 226,5
por 100.000 HSH. Neste mesmo ano, a taxa de incidência para a população
geral foi de 19,5 casos por 100.000 habitantes, indicando, portanto, que a taxa
de incidência estimada para HSH é 11 vezes maior do que a da população em
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desenvolverem aids é dezoito vezes maior que a dos heterossexuais.
Isso pode estar acontecendo em função do surgimento de práticas
de alto risco para a infecção pelo HIV e outras DST entre esta população,
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montar sem cela. De acordo com Léobon e Frigault (2005) este termo era
inicialmente empregado em rodeios norte-americanos como uma modalidade
de esporte sem proteção, e posteriormente passou a ser utilizado no contexto
da comunidade gay norte-americana em meados de 1990 para designar o sexo
intencional sem preservativo.
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desprotegido entre homens que fazem sexo com homens de forma intencional
(ELFORD, 2006; SHERNOFF, 2006). Porém pode haver diferenças quanto
ao tipo de vínculo e condição sorológica dos parceiros. Wolitski (2005) utiliza
o termo correspondendo ao sexo anal sem preservativo de forma intencional,
exceto quando praticado por parceiros primários HIV negativo que mantêm
um relacionamento mutuamente monogâmico ou em um relacionamento de
proteção negociada.
A partir do exposto, faz-se necessário considerar o surgimento de uma
nova forma de ver o risco de maneira positiva (LE BRETON, 2000; SPINK,
2001) que passa a coexistir com a ideia antiga de risco como ameaça e perigo.
Silva e Iriart (2010) ressaltam que no barebacking ocorre a valorização da
experiência corporal, sensorial, que se concretiza a partir de um contato
mais intenso com o outro. Seria um prazer a mais que surge pela expansão
e transgressão das fronteiras e limites do próprio corpo. O barebacking pode
representar ainda uma estratégia de resistência a um discurso normativo da
saúde em relação ao sexo seguro (CROSSLEY, 2002; ROFES, 2002).
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entendido como sendo restrito à subcultura que o criou, já que ele diz respeito
a uma experiência de intimidade sem restrições, seria o desejo de superar a
fronteiras entre as pessoas, que está longe de ser exclusiva da comunidade
gay. O barebacking iria, portanto, muito além da prática do sexo anal sem
preservativo e se inseriria em um conjunto de dispositivos organizados de um
grupo.

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