Padre Raulino Reitz e as ciências naturais no Brasil

Autor:Rogerio F. Guerra
Cargo:Universidade Federal de Santa Catarina
Páginas:9-67
RESUMO

Relatos sobre as riquezas do Brasil. Os nativos e a biodiversidade. As expedições científicas. As ciências naturais. Anatomia de uma monstruosidade. O nascimento da botânica no Brasil. Naturalistas do Sul. Explicações sobre religiosidade e vocação naturalista. A infância de Raulino no Louro. A formação intelectual de ... (ver resumo completo)

 
ÍNDICE
TRECHO GRÁTIS

Rogerio F. Guerra1

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Relatos sobre as riquezas do Brasil

Alguns exploradores, como Pero Vaz de Caminha, o cronista do descobrimento, fizeram relatos da biodiversidade brasileira. A carta de Caminha descreve genericamente alguns animais e plantas, mas não restam dúvidas sobre o uso do corante vermelho extraído do urucum (Bixa orellana) e o preto derivado do suco do jenipapo (Genipa americana). Os dois corantes ainda são utilizados pelos índios para adornarem a pele e o processo de extração do urucum é o mesmo de 500 anos atrás. Outros exploradores vieram a seguir e enriqueceram os registros da biodiversidade, como Hans Staden (Duas viagens ao Brasil, 1557) que descreveu a importância da mandioca na alimentação diária dos índios. O desafortunado aventureiro alemão foi aprisionado pelos índios Tupinambás - nove meses de "engorda", pois ele era demasiado magro para ser consumido num ritual antropofágico. As invencionices de Staden foram plagiadas por outros exploradores, de modo que a antropofagia passou a ser vista como prática corriqueira entre os nativos do Novo Mundo.

Os relatos de Andre Thevet (Les singularitez de la France Antarctique, 1550) e Jean de Lery (Histoire d'un voyage faict en la terre du Brésil, 1574) têm importância histórica. Thevet descreveu o modo peculiar de extração do suco de jenipapo pelos índios. Eles mastigavam o fruto e dele extraíam um líquido claro, mas que, ao ser espalhado pelo corpo, se transformava num corante entre negro e azulado. Outra curiosidade foi a descoberta da pacoveira, o nome que os nativos davam à bananeira. Thevet ficou encantado com as propriedades nutricionais e singularidade da planta, pois o fruto era saboroso, nutritivo e abundante; ele podia ser consumido imediatamente ou era cozido e servia de complemento alimentar nas refeições.

A dieta alimentar dos nativos era rica em proteínas de origem animal, complementada por frutas e raízes. Eles não usavam animais para aragem do solo, mas plantavam milho, batata-doce e mandioca; eles ateavam fogo nas matas para limpar o terreno, sulcavam a terra com instrumentos de madeira e lançavam as sementes para o plantio. Os índios consumiam uma ampla variedade de produtos naturais, mas não viviam unicamente num sistema de caça-e-coleta.

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O espírito pragmático deu origem a uma agricultura (circunstancial e pouco eficiente, é verdade) e produziu certos avanços na tecnologia alimentar, como a farinha de mandioca e o processo de desidratação da carne, o moquém. A mandioca era descascada e ralada com o auxílio de pedras, conchas e dentes ou ossos de animais; a raspa era espremida vigorosamente para remover o suco tóxico. O produto era levado aquecido em fogo brando, enquanto as cunhãs remexiam as panelas para evitar a formação de bolos e aquecimento desigual da farinha. O resultado final era uma farinha alvíssima que servia de base para bolinhos, pirões e tapiocas ou era consumida pura. A farinha de mandioca era facilmente transportável, mantinha o sabor e a qualidade por um longo tempo e atendia às necessidades dos homens em momentos de apuro.

André Thevet não via com bons olhos os costumes da indiada, principalmente no que diz respeito ao suposto apetite por carne humana e completa ignorância das Sagradas Escrituras, mas ficou admirado com o modo de preparo da farinha de mandioca e o cultivo de certas plantas (mandioca, milho, amendoim e banana). A idéia de que nossos ancestrais e os nativos do Novo Mundo viviam em sistema de caça-e-coleta causava desconforto na alma do capuchinho e, com efeito, ele formulou uma curiosa teoria para explicar o uso racional dos recursos da natureza: o Homo sapiens nunca passara pelo sistema oportunístico da caça-e-coleta, pois Adão semeava a terra e conseguia o alimento com o suor de seu rosto. Somente os poetas ou pessoas que não compreenderam os ensinamentos do livro Genesis imaginam que outrora vivíamos num sistema feral - o mau humor era direcionado à obra de Virgilio (70-19 AC). Ao tentar compatibilizar suas observações com a fé religiosa, Thevet explicou o surgimento da agricultura da seguinte forma:

Ora, que os homens universalmente e em toda a Terra tenham vivido como animais selvagens, é antes de tudo uma idéia fantástica do que uma verdade histórica. Só mesmo os poetas é que têm tais idéias, no que são seguidos por aqueles que o imitam. Virgilio expõe esta teoria na primeira de suas Geórgicas, mas eu prefiro acreditar nas Escrituras Sagradas, onde se mencionam os trabalhos agrícolas de Adão e as oferendas que ele fazia a Deus (p. 192).2

Os índios desenvolveram engenhosos (e danosos ao meio-ambiente) sistemas de pesca, consumiam larvas de insetos e conheciam razoavelmente o valor nutricional de várias plantas. Eles processavam o alimento e tinham suas beberagens, como o cauim (bebida obtida a partir da fermentação da mandioca ou do milho).

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Outro passatempo eram as fumaças da "herva santa do gentio": os índios enrolavam folhas de petun, acendiam as extremidades e aspiravam por longos períodos a fumaça dos charutões. Thevet descreveu o hábito tabagista dos nossos índios e enviou sementes da planta à França (1550), mas quem levou a fama de descobridor foi Jean Nicot, embaixador francês sediado em Portugal. O alcalóide foi isolado logo a seguir (1571) e o seu nome foi imortalizado no nome da planta (Nicotiana tabacum) e da substância que entorpecia e causava prazer (nicotina).

A fumaça dos charutos servia a propósitos variados, pois o torpor facilitava o acesso ao "mundo dos espíritos" e afugentava os mosquitos; infusões feitas com as folhas da planta eram usadas no combate à verminose, doença muito comum entre os nativos do Novo Mundo. Eles despendiam longo tempo compartilhando a "herva santa", pois as baforadas proporcionavam prazer e curavam a umidade excessiva do cérebro. A alimentação era excessivamente "humida" e de difícil digestão, mas a fumaceira do petun ajudava a purgar a fleuma do estômago e corrigir outros males. Padre Nóbrega tinha sérios problemas estomacais, tinha asma e expelia sangue no catarro e se sentiu tentado a fazer uso da "herva santa", só não fazendo por não concordar com os costumes da indiada. Por seu turno, os cronistas julgavam que aquilo era um presente de Deus e alardearam aos quatro ventos a fabulosa descoberta. A ingênua propaganda foi eficaz, pois o tabagismo se transformou numa praga mundial.

O pai da historiografia brasileira foi Frei Vicente do Salvador (1564-c.1639), autor do primeiro livro sobre a colonização portuguesa. Foi ele o autor da metáfora que informava que os portugueses "caranguejavam as costas do Brasil", na verdade uma crítica severa à negligência dos portugueses por se aventurarem no interior do país. Frei Vicente foi o primeiro a escrever um livro sobre o Brasil numa perspectiva brasileira e isso explica o uso da curiosa metáfora para lançar críticas à política colonialista dos portugueses. Ele não economizou os adjetivos ao descrever as nossas riquezas, como as árvores frondosas que proporcionavam sombra e material para construção das moradias, não esquecendo as folhagens, os palmitos e óleos extraídos das cascas de árvores, os quais substituíam os óleos utilizados nas unções e crismas. A grande variedade de frutos (cajus, maracujás, jenipapos, ananás e melancias) saciava a fome e dava mais sabor à vida. Os relatos do franciscano são repetitivos e redundantes, mas, curiosamente, o estilo é compatível com a luxúria da biodiversidade brasileira.

Os nativos e a biodiversidade

Os nativos tinham bons conhecimentos sobre as plantas e comportamento dos animais, mas não desenvolveram uma agricultura plena e eficiente e tampouco submetera alguma espécie animal ao processo de domesticação.

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Eles processavam certos alimentos, produziam beberagens e extraíam o suco ou óleo das plantas (jenipapo, coco e dendê); outros produtos apreciados pela indiada eram mel e banha de jacarés ou de cágados, os quais eram utilizados para fins medicinais. Os nativos eram muito seletivos em relação aos ovos (gostavam de ovos de jacarés) e não consumiam leite. A inteligência do noble sauvage também produziu "bombas toxicológicas", obtidas a partir do veneno de sapos, suco da mandioca ou da seiva de cipós ou de certas árvores (curare); o produto era usado nas caçadas ou defesa contra os inimigos.

A idéia que os habitantes do Novo Mundo viviam em harmonia com a natureza merece alguns reparos. Com efeito, os procedimentos adotados nas lavouras de milho e mandioca eram inadequados, pois eles promoviam a derrubada de árvores centenárias ou simplesmente ateavam fogo numa vasta área para suas plantações, mas simplesmente migravam quando exauriam os recursos do local. As pescarias também tinham efeitos catastróficos, pois os índios represavam um trecho do rio e despejavam o veneno extraído da casca de certas árvores (timbó, da família Sapindácea), o que resultava na morte de incontáveis répteis, anfíbios e peixes em estágio larval. O objetivo era a captura de peixes maiores, mas os menores morriam aos borbotões. Padre Anchieta se assustou com a mortandade: cerca de doze mil peixes grandes - a maior parte apodrecia no local, pois a fartura era superior às necessidades da indiada.3

Outro tópico que deve ser examinado com cuidado...

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