Mulheres e lutas políticas: conquistas e limites vividos na segunda metade do Século XX

Autor:Flávia Fernandes de Carvalhaes - Sonia Regina Vargas Mansano
Cargo:Doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil - Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Páginas:141-164
RESUMO

A segunda metade do século XX foi um período marcado por conquistas e retrocessos importantes no campo das lutas pelos direitos femininos. O presente estudo mapeou e descreveu parte dos discursos, imagens e movimentos empreendidos naquele período histórico bem como seus efeitos sobre a vida da população. Adotando uma perspectiva de análise histórica e teórica, a descrição debruçou-se,... (ver resumo completo)

 
TRECHO GRÁTIS
http://dx.doi.org/10.5007/1807-1384.2016v13n2p141
R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.13, n.2, p. 141-164 Mai-Ago. 2016
MULHERES E LUTAS POLÍTICAS: CONQUISTAS E LIMITES VIVIDOS NA
SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX
Flávia Fernandes de Carvalhaes
1
Sonia Regina Vargas Mansano
2
Resumo:
A segunda metade do século XX foi um período marcado por conquistas e
retrocessos importantes no campo das lutas pelos direitos femininos. O presente
estudo mapeou e descreveu parte dos discursos, imagens e movimentos
empreendidos naquele período histórico bem como seus efeitos sobre a vida da
população. Adotando uma perspectiva de análise histórica e teórica, a descrição
debruçou-se, primeiramente, sobre as lutas realizadas em alguns países da Europa
e nos Estados Unidos, evidenciando seus principais desafios e dificuldades. Em
seguida, mapearam-se as lutas empreendidas no Brasil, tendo como eixo de análise
o enfrentamento das desigualdades. Ao final, considera-se que as lutas políticas
realizadas no período analisado tiveram como maior mérito o rompimento e a
exploração das fronteiras de gênero.
Palavras-chave: Mulheres. Política. Resistência.
1 INTRODUÇÃO
A segunda metade do século XX foi marcada pela expansão de direitos
femininos que ajudaram a desenhar significativas mudanças nas condições de vida
de mulheres e homens em países ocidentais, destacando-se o direito ao trabalho,
educação e saúde (DUBY; PERROT, 1991). Apesar dos avanços, alguns discursos
e práticas pautados em modelos tradicionais de feminilidade e masculinidade
persistem, marcam os corpos e produzem efeitos na construção dos modos de viver
e se relacionar (DUBY; PERROT, 1991). Tais diferenças já se faziam presentes em
décadas passadas, principalmente no que se refere às demandas díspares
colocadas para as mulheres que deveriam ser ora delicadas e maternais, ora
lutadoras e ativas, ora ainda intelectuais e profissionais, a depender do contexto em
1
Doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.
Professora da Universidade Norte do Paraná e Universidade Estadual de Londrina. Psicóloga na
política de Socioeducação da cidade de Londrina junto à política de Assistência Social, Londrina, PR,
Brasil E-mail: carvalhaes1@yahoo.com.br
2
Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pós-doutorado na
mesma universidade, São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. Professora da Universidade Estadual de
Londrina, Londrina, PR, Brasil E-mail: smansano@sercomtel.com.br
142
R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.13, n.2, p. 141-164 Mai-Ago. 2016
que se encontravam. Isso se torna mais evidente quando analisamos a
disseminação de discursos e imagens, na acepção foucaultiana de dizibilidades e
visibilidades produzidas socialmente (FOUCAULT, 2000), lançados sob inspiração
do discurso feminista, como é o caso das propagandas de soutiens que, no final da
década de 1960, sugeriam a libertação das mulheres do domínio masculino, ao
mesmo tempo em que circulavam discursos e imagens que mostravam as mulheres
como sendo as únicas capazes de realizar o trabalho doméstico e educativo, com
rendimento e qualidade satisfatórios (CARVALHAES, 2015).
Analisar as lutas políticas do século XX implica percorrer algumas forças que
ajudaram a tecer novas possibilidades de existência para homens e mulheres em um
momento que foi marcado por rupturas e desafios na construção dos valores e dos
modos de viver em sociedade. Adotando essa perspectiva de produção social,
Foucault assinala:
O sujeito se constitui através das práticas de sujeição ou, de maneira mais
autônoma, através de práticas de liberação, de liberdade (...) a partir,
obviamente, de um certo número de regras, de estilos, de conversações
que podemos encontrar no meio cultural (FOUCAULT, 2011, p. 291)
A produção de sujeições e liberdades implicaram enfrentamentos diversos,
em especial quando analisamos em termos de resistências. Estas, de acordo com
Michel Foucault, podem ser compreendidas como pontos “móveis e transitórios, que
introduzem na sociedade clivagens que se deslocam, rompem unidades e suscitam
reagrupamentos, percorrem os próprios indivíduos, recortando-os e os remodelando,
traçando neles, em seus próprios corpos e almas, regiões irredutíveis” (FOUCAULT,
1988, p. 92). Sempre no plural, os focos de resistência presentes nas lutas políticas
das mulheres foram inscritos num campo de forças complexo, onde se afirmavam
desde modelos mais tradicionais de gênero até as ações de rupturas. Pode-se dizer,
então, que foi em meio a condições adversas de existência, que os exercícios de
resistência tornaram-se possíveis; afinal, “se há relações de poder em todo o campo
social, é porque há liberdade por todo lado” (FOUCAULT, 2011, p. 277).
Foi exatamente analisando este campo de forças em conflito, com a
pluralidade de resistências que ganharam marcas “possíveis, necessárias,
improváveis, espontâneas, selvagens, solitárias, planejadas, arrastadas, violentas,
irreconciliáveis” (FOUCAULT, 1988, p.106), que este ensaio ganhou contornos. Seu
objetivo consiste em percorrer parte dessas lutas, buscando compreender como

Para continuar a ler

PEÇA SUA AVALIAÇÃO