Mercados Imersos: uma perspectiva de análise institucional e relacional das trocas econômicas e do intercâmbio mercantil

Autor:Abel Cassol, Natália Salvate e Sergio Schneider
Cargo:Doutorando em Sociologia. Mestre em Sociologia - Doutoranda em Desenvolvimento Rural. Mestre em Desenvolvimento Rural - Doutor em Sociologia
Páginas:314-346
RESUMO

Este artigo apresenta a perspectiva dos mercados imersos, ou nested markets, como mercados socialmente construídos e imersos em relações entre diferentes agentes que compartilham um conjunto de regras, normas, valores e convenções sociais. A partir da análise de dois casos empíricos - de turismo rural no Roteiro Caminhos de Pedra e da Feira do Pequeno Produtor de Passo Fundo/RS - discute-se a... (ver resumo completo)

 
TRECHO GRÁTIS
http://dx.doi.org/10.5007/2175-7984.2016v15n33p314
314 314 – 346
Mercados Imersos: uma perspectiva
de análise institucional e relacional
das trocas econômicas e do
intercâmbio mercantil
Abel Cassol1
Natália Salvate2
Sergio Schneider3
Resumo
Este artigo apresenta a perspectiva dos mercados imersos, ou nested markets, como mercados
socialmente construídos e imersos em relações entre diferentes agentes que compartilham um
conjunto de regras, normas, valores e convenções sociais. A partir da análise de dois casos empí-
ricos – de turismo rural no Roteiro Caminhos de Pedra e da Feira do Pequeno Produtor de Passo
Fundo/RS – discute-se a construção e dinâmica destes mercados, aplicando-se o referencial dos
mercados imersos e sua relação com as abordagens institucionalistas, principalmente a Nova
Economia Institucional de Elinor Oström. O objetivo do artigo é demonstrar como os mercados
socialmente construídos se relacionam com os mercados mais amplos, o que faz com que não
operem isoladamente, mas sofram influências e estejam constantemente interagindo com os
mercados convencionais.
Palavras-chave: Mercados agroalimentares. Construção social de mercados. Mercados imersos.
Nova economia institucional.
1 Introdução
A literatura sobre mercados nas ciências sociais tem convergido sobre o
pressuposto de que toda ação econômica de troca ou intercâmbio encontra-se
1 Doutorando em Sociologia. Mestre em Sociologia – PPGS/ UFRGS. E-mail: abelcassol@hotmail.com
2 Doutoranda em Desenvolvimento Rural. Mestre em Desenvolvimento Rural – PGDR/UFRGS.
E-mail: nataliasalvatebrasil@gmail.com
3 Doutor em Sociologia. Professor Associado IV do Departamento de Sociologia e membro permanente dos
Programas de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR) e Sociologia (PPGS) – UFRGS.
E-mail: schneide@ufrgs.br
Política & Sociedade - Florianópolis - Vol. 15 - Nº 33 - Maio./Ago. de 2016
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imersa em mecanismos sociais e culturais que dão sentido e signicado aos
modos e formas através das quais os atores interagem para transacionar seus
bens. Cada vez mais, reconhece-se o peso das relações sociais e das origens
culturais como orientadores da ação econômica e, portanto, a sua inuência
na estruturação dos mercados.
É em torno dessa convergência que se estabelece o marco central do debate
atual sobre o entendimento dos mercados como construções sociais. Isso se
traduz na assertiva de que os mercados emergem das interações sociais entre os
atores e os arranjos coletivos de gestão e manutenção das transações econômi-
cas e do intercâmbio mercantil. Não obstante, mesmo que seja correto armar
que todos os mercados se encontram imersos em relações sociais – como re-
gras, normas e convenções mobilizadas e compartilhadas coletivamente – não
se pode dizer que todos os mercados são socialmente construídos.
Há uma diferença importante que precisa ser elucidada. Ainda que o fun-
cionamento de todo e qualquer mercado somente seja possível na medida em
que os atores e agentes compartilhem um conjunto de regras, normas, valores
e convenções sociais, nem todos os mercados são socialmente construídos.
Existem vários mercados de alimentos, roupas, crédito nanceiro e outros que
se caracterizam pela oferta e demanda mediados por preços relativos ou ou-
tros dispositivos, tais como contratos formais. Estes são, portanto, mercados
convencionais ou mainstream, aqui entendidos como aqueles que representam
a corrente usual, corriqueira, linear, dominante e hegemônica. Estes merca-
dos não são resultado de estruturas sociais compartilhadas coletivamente e
construídas através de interações em contextos institucionais especícos. Estes
mercados operam e funcionam segundo regras, normas e convenções formais
que se ordenam e coordenam pelo mecanismo dos preços.
Os mercados socialmente construídos, ao contrário, são o resultado dire-
to e concreto da interação social entre agentes, não havendo uma convenção,
regra ou norma prévia que dena o caminho ou o ritual a ser seguido pelos
que participam no processo de sua construção. A construção social é um pro-
cesso dinâmico, que se movimenta em sentido espiral, às vezes retroage antes
de avançar, gera contradições, demanda acordos, negociações e os consensos
podem ser revistos e reavaliados. Uma construção social reete, portanto, o
modo de ser dos humanos quando interagem entre si e buscam criar sentido
para sua ação. Os mercados socialmente construídos são, portanto, instâncias,
Mercados Imersos: uma perspectiva de análise institucional e relacional das trocas econômicas e do intercâmbio mercantil | Abel
Cassol, Natália Salvate, Sergio Schneider
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espaços e momentos em que ocorre a interação social entre indivíduos que
buscam realizar trocas de mercadorias, produtos e serviços visando atender
interesses variados.
Não obstante, ainda está em discussão se os mercados socialmente cons-
truídos seriam alternativos aos mercados convencionais, no sentido de repre-
sentar um modo distinto de fazer e/ou realizar as interações sociais que visam
trocas ou intercâmbios, ou se coexistiriam, admitindo-se neste caso a convi-
vência de formas híbridas de mercados. Os analistas mais ortodoxos, sejam
eles liberais ou marxistas, simplesmente preferem caracterizar os mercados
convencionais como sinônimos de mercados capitalistas e, em última análise,
armam que os mercados são a essência do modo capitalista de produção
(BERNSTEIN; OYA, 2014; BECKER, 1996; DEQUECH, 2003). Já os he-
terodoxos sustentam que os mercados não foram criados pelo capitalismo e
nem de longe se resumem a ele, uma vez que as trocas e as interações econô-
micas estão presentes em várias outras formações sociais da história humana,
até mesmo no escravismo (SWEDBERG, 2010; POLANYI, 1976).
Neste artigo nos referimos aos mercados socialmente construídos como
mercados imersos ou aninhados. Vale referir que esta denição tenta traduzir
o conceito de nested markets’, tal como foi formulada por autores a seguir
referidos. Os mercados imersos são mercados socialmente construídos, se or-
ganizam a partir de interações sociais entre atores concretos que ocupam espa-
ços concretos. Não são mercados que se orientam ou seguem a linearidade e
as convenções estreitas dos mercados capitalistas4. Contudo, tal como vamos
explicar e demonstrar a partir do estudo de dois casos empíricos, os mercados
imersos não estão fora do capitalismo ou do modo de produção dominante
na sociedade atual. Portanto, os mercados imersos emergem, crescem, se de-
senvolvem e evoluem no interior dos mercados dominantes e em contato com
estes. Eles coexistem e se reproduzem em relação aos mercados convencio-
nais e por isso mesmo são pressionados a se adaptar, muitas vezes conseguem
4 Isto não implica na negação de que os mercados capitalistas/convencionais também possuam origens sociais,
mas no fato de que a sua estruturação seja diferente daquelas presentes nos mercados imersos. Nos mercados
convencionais, esta estruturação se dá sobre lógicas e convenções abstratas e lineares, que não resultam das
interações entre os atores, mas de mecanismos gerais e hegemônicos, que muitas vezes implicam em perda de
controle e dependência. No caso dos mercados imersos, a sua estruturação se dá sobre processos dinâmicos
de interações sociais concretas através das quais os atores envolvidos conseguem manter maior autonomia e
capacidade de controle de suas transações. Portanto, neste sentido, são construções sociais.

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