Mercado e Contestação: a atuação da crítica social e as transformações nas estratégias das empresas siderúrgicas de Carajás (1988-2012)

Autor:Marcelo Sampaio Carneiro
Cargo:Professor do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão
Páginas:282-313
RESUMO

Este artigo discute a relação entre movimentos de contestação social e o funcionamento dos mercados, a partir da análise da dinâmica e das transformações do campo da produção siderúrgica na Amazônia. O estudo apresenta as diferentes estratégias mobilizadas pelas empresas presentes nesse campo, para enfrentar os efeitos da crítica social quanto à existência de situações de trabalho escravo na... (ver resumo completo)

 
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http://dx.doi.org/10.5007/2175-7984.2016v15n33p282
282 282 – 313
Mercado e contestação: a atuação da
crítica social e as transformações nas
estratégias das empresas siderúrgicas
de Carajás (1988-2012)
Marcelo Sampaio Carneiro1
Resumo
Este artigo discute a relação entre movimentos de contestação social e o funcionamento dos mer-
cados, a partir da análise da dinâmica e das transformações do campo da produção siderúrgica
na Amazônia. O estudo apresenta as diferentes estratégias mobilizadas pelas empresas presentes
nesse campo, para enfrentar os efeitos da crítica social quanto à existência de situações de tra-
balho escravo na cadeia de fornecedores de carvão vegetal. A partir da tipologia proposta por A.
Hirschman, a pesquisa identificou três gerais de estratégias empresariais (saída, voz e lealdade)
e procurou correlacioná-las com as propriedades sociais dos grupos empresariais presentes no
campo econômico.
Palavras-chave: Contestação Social. Mercados. Siderurgia. Teoria dos Campos.
Uma literatura sociológica crescente tem discutido os efeitos de movimen-
tos de contestação social sobre o funcionamento de mercados (HOMMEL,
2004; BARTLEY, 2007; DUBUISSONQUELLIER, 2009; ABRAMOVAY,
2009); contudo, apresentando como limitação uma visão demasiadamente
interacionista (KING; PEARCE, 2010), concentrada na capacidade demiúr-
gica de atores sociais habilidosos (FLIGSTEIN, 2009; 2011). Considero que
esse tipo de abordagem possui o mérito de destacar a capacidade de agência
dos atores na promoção de iniciativas que constrangem as empresas (selos
ambientais, campanhas de boicote etc.), mas que não conferem o devido valor
1 Professor do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão. E-mail:
mdscarneiro@uol.com.br
Política & Sociedade - Florianópolis - Vol. 15 - Nº 33 - Maio./Ago. de 2016
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à relação existente entre essa capacidade e a posição dos agentes no campo.
Neste artigo, apresento um estudo que dialoga com essa perspectiva geral, mas
que procura se diferenciar, destacando a importância dos recursos (capitais)
para a movimentação dos agentes no campo (BOURDIEU, 2000; BOYER,
2004; VAN CAMPENHOUDT, 2012; GARCIAPARPET, 2013).
O estudo em questão aborda o funcionamento de um campo econômico
singular, o chamado Polo Siderúrgico de Carajás (PSC), conjunto de cerca
de quinze empresas que produzem ferro-gusa para exportação, e que desde
o início do seu funcionamento – na década de 1980 – vive uma situação de
instabilidade, relacionada com denúncias da existência de trabalho escravo na
cadeia de fornecedores de carvão vegetal para essas empresas (CARNEIRO,
2008; MORELLO; PIKETTY, 2010; ASSIS; CARNEIRO, 2015.
A perspectiva teórica utilizada para a compreensão da atuação dessas em-
presas foi a teoria dos campos (BOURDIEU; WACQUANT, 1992; BOUR
DIEU, 2000). De acordo com essa abordagem, a denição da estratégia em-
presarial, num determinado campo, é condicionada pela posição da empresa
na estrutura do campo econômico, a partir da estrutura e volume dos capitais
(econômico, simbólico, social, tecnológico) que ela possui. Para Bourdieu, as
estratégias empresariais dependem dessa capacidade interna e do posicionamen-
to da empresa no campo econômico, cuja estrutura “é denida pelo grau de
concentração desse campo, isto é, conforme a distribuição de partes do mercado
entre um número maior ou menor de empresas, variando entre dois limites, que
são a concorrência perfeita e o monopólio” (BOURDIEU, 2000, p. 246).
No caso da produção siderúrgica localizada na Amazônia Oriental, o fa-
tor especíco que a singulariza e torna possível tratá-la como um campo é que
são siderúrgicas classicadas como produtores independentes de ferro-gusa e
que utilizam o carvão vegetal como insumo energético e redutor2 (MONTEI
RO, 2006, SANTOS, 2010 e MORELLO; PIKETTY, 2010). Ou seja,
elas são diferentes do principal grupo de empresas siderúrgicas brasileiras, que
são produtores integrados ou semi-integrados3 e que utilizam predominante-
mente carvão mineral como insumo redutor (CGEE, 2010; 2015).
2 O carvão vegetal funciona como “agente térmico, fornecendo o calor necessário ao processo; e químico, reti-
rando oxigênio dos óxidos de ferro” (MONTEIRO, 2006, p. 62).
3 As usinas integradas realizam três etapas do processo produtivo do aço (redução, refino e laminação), as
semi-integradas somente duas (refino e laminação), enquanto os produtores independentes de ferro-gusa se
concentram, geralmente, apenas no processo de redução.
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Dois aspectos adicionais ajudam a denir a singularidade desse campo:
sua forte relação com o mercado exterior, especialmente o norte-americano;
e a dependência quase que exclusiva de um único fornecedor de minério de
ferro: a empresa Vale. Essa orientação para o mercado externo é o fator que
permite diferenciar a produção guseira da Amazônia da que é realizada no
sudeste do país, que se encontra concentrada nos estados de Minas Gerais e
do Espírito Santo, e que tem como foco principal o mercado interno (VITAL;
PINTO, 2009).
Como dene Bourdieu (2000), um campo econômico é organizado por
empresas dominantes e desaadoras. As primeiras desenvolvem estratégias de
manutenção de sua posição no campo, enquanto as últimas elaboram estra-
tégias de subversão do status quo. Para enfrentar as ameaças dos desaantes,
as empresas dominantes trabalham com duas perspectivas principais: buscar a
melhoria da posição global do campo, através do aumento da demanda global
do bem (ou serviço) produzido; ou aumentar sua posição no campo, isto é,
ampliando sua parcela no mercado.
Segundo Boyer (2004), existem pelo menos cinco fatores que são capazes
de provocar mudança em um determinado campo econômico: i) inovações
elaboradas pelos atores dominantes; ii) a entrada de novos agentes no campo;
iii) a redenição das fronteiras do campo; iv) o surgimento de uma dessincro-
nia entre o habitus dominante e o campo; e v) o surgimento de mudanças na
relação entre o campo e o poder estatal; ou seja, essas transformações surgem
a partir de alterações nas relações internas ao campo ou de mudanças relacio-
nadas com agentes externos ao campo.
No caso estudado, o principal vetor de mudança no comportamento das
empresas é externo ao campo que, todavia, não é considerado na análise de
Boyer (2004); trata-se dos agentes que contestam a presença do trabalho es-
cravo na cadeia de suprimentos de carvão vegetal das empresas siderúrgicas.
Esses agentes são as diferentes organizações não governamentais Anti Slavery
International, Comissão Pastoral da Terra, Instituto Observatório Social, Re-
pórter Brasil etc. –, que, atuando em formato de rede, realizam campanhas de
denúncia quanto às relações de trabalho subjacentes à produção do ferro-gusa
amazônico (SUTTON; 1994; IOS, 2011a, 2011b; GREENPEACE, 2012).
Essas campanhas dirigem-se aos grupos consumidores do ferro-gusa no mer-
cado norte-americano, mas pressionam também as diferentes agências do

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