A linguagem dos tatos, cheiros, sons e cores

Autor:Márcio Túlio Viana - Raquel Portugal Nunes
Páginas:236-296
 
TRECHO GRÁTIS
4. a linguageM dos TaTos,
cheiros, sons e cores
Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu na Rampa do
Mercado. Andamos por aí, trocando pernas, sentindo os cheiros,
tantos, um perfume de vida ao sol, vendo as cores, só de azuis
contamos mais de quinze e havia um ocre na parede de uma casa,
nem te digo.
(Carta de Dorival Caymmi a Jorge Amado)
Aprendi nesse território por desbravar que o princípio não é o
verbo, mas o cheiro. Meu primeiro ato era inspirar aquelas folhas
virgens, as quais eu seria a primeira a decifrar. Depois eu passava
a ponta dos dedos na capa, sentindo a pele e a forma, acariciava
as páginas com reverência. Só então lia a primeira palavra, toda
arrepiada.
(Eliane Brum, “Meus Desacontecimentos”)
1. AS CORES
— Cerimônias ridículas! — resmungou ainda, mas logo ergueu um
paletó da cadeira e o sustentou um instante com as duas mãos,
como se o submetesse ao julgamento dos guardas.
Eles sacudiram a cabeça.
— Tem de ser um paletó preto — disseram.
Diante disso K. jogou o paletó no chão e disse — ele mesmo não
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Márcio Túlio Viana/Raquel Portugal Nunes
sabia em que sentido o estava dizendo:
— Mas ainda não é a audiência principal.
Os guardas sorriram, mas insistiram:
— Tem de ser um paletó preto.
(Kafka, “O processo”)
Maureen Seaberg é uma jornalista estadunidense. Foi convidada por uma
grande empresa de cosméticos a trabalhar como consultora na criação de
uma nova linha de batons. Maureen não é especialista em maquiagem. A razão
de sua contratação foi outra. Ela consegue enxergar cores ou tonalidades que são
invisíveis para a maioria das pessoas. Pode ver até 100 milhões de cores, enquanto
a maioria de nós consegue reconhecer em torno de um milhão.(1)
Para a empresa de maquiagem, Maureen seria capaz de criar cores mais
“puras”, identificando e propondo a eliminação de subtonalidades, que seriam
responsáveis pela nossa impressão de que determinado batom “cai bem” em uma
pessoa e não em outra. Os batons mais puros seriam mais neutros, combinando
bem com diferentes tons de pele.(2)
Para compreender a habilidade de Maureen, é preciso entender, ainda que
de forma breve, o mecanismo que nos permite ver as cores. Nós temos, em nossas
retinas, conjuntos de células cones responsáveis por captar a luz. A maioria de nós
possui três cones na retina e cada um deles responde a diferentes frequências de luz.
Cada cone permite a percepção de cerca de uma centena de tons, de forma
que o número total de combinações é de mais ou menos um milhão. Quase todos
os mamíferos são dicromatas — possuem apenas dois cones na retina. A maioria
dos seres humanos possui três cones e são chamados tricomatas. Mas há, também,
mulheres como Maureen — as tetracromatas — que possuem quatro cones na retina
e conseguem identificar uma nuance muito maior de cores.(3)
Perguntada sobre como era ser tetracromata em uma sociedade majoritaria-
mente tricromata, Maureen relatou que passou anos reclamando das roupas que as
pessoas usavam. Ela achava que muitas não sabiam combinar bem as peças. Sobre
a dificuldade de comunicar o que não é visível para os outros, ponderou: “Como eu
comunico os tons ‘extras’ para as pessoas que não conseguem vê-los? Seria como
você tentar descrever o amarelo para uma pessoa cega desde o nascimento”.(4) As
tetracromatas nos recordam sobre os limites da nossa percepção do mundo. Muita
coisa nos escapa. E algumas chegam até nós somente como uma impressão, como
um batom que “cai bem” ou não em alguém.
Já o lucrativo e incansável mercado da indústria da maquiagem, por sua
vez, nos recorda a importância dada pelo ser humano à utilização e ao domínio
das cores.
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O Segundo Processo
O fascínio pelas cores tem acompanhado a humanidade nas mais diversas
épocas e civilizações. Múmias egípcias foram encontradas envoltas em tecidos de
azul-índigo; povos indígenas de variadas etnias combinam cores nos seus desenhos
corporais; os celtas pintavam o rosto de azul para amedrontar as tropas de César;
fenícios descobriram que podiam produzir a cor púrpura a partir do muco extraído
de certas espécies de caramujos.(5)
A busca pelos pigmentos que permitiam ao homem colorir os seus corpos e
as suas obras moveu não só a curiosidade humana, como também grandes em-
preitadas. Os corantes estavam entre as especiarias mais cobiçadas das grandes
navegações. O azul das Índias ficou famoso, assim como o vermelho do pau-brasil.
As cores se tornaram extremamente lucrativas.
Em Nuremberg, na Alemanha, o uso do corante da Índia chegou a ser punido
com a pena de morte, na tentativa de proteger o mercado interno de corantes.
Empresas investiram verdadeiras fortunas na pesquisa de corantes artificiais. Adolf
Baeyer chegou a receber um título de nobreza por seus méritos na descoberta do
azul-índigo artificial.(6)
Hoje, as mais variadas cores podem ser produzidas artificialmente, mas o
valor de algumas delas ainda pode assustar. Paga-se cerca de 15.200 euros pelo
quilo de azul ultramarino autêntico, produzido a partir do pigmento de uma pedra
semipreciosa.(7)
Fato é que as cores também se tornaram elemento extremamente significa-
tivo do nosso cotidiano e um elemento essencial da nossa comunicação: por meio
delas transmitimos mensagens, de forma consciente ou inconsciente. Em seu livro
“A psicologia das cores”, Eva Eller ensina:
Cores e sentimentos não se combinam ao acaso nem são uma questão
de gosto individual — são vivências comuns que, desde a infância, foram
ficando profundamente enraizadas em nossa linguagem e em nosso
pensamento.(8)
Uns tempos atrás, nas varas trabalhistas de Belo Horizonte, um advogado se
tornou conhecido não só por sua competência, mas por usar várias cores em suas
petições. Era uma forma de chamar a atenção do juiz para este ou aquele ponto
mais importante.
Hespanha(9) nos fala de Hermann Wismann, um estudante alemão que em
1683 escreveu uma dissertação sobre as cores, do ponto de vista do Direito (De
iure circa colores). O trabalho foi publicado no mesmo ano, com enorme sucesso.
Para ele, o significado das cores estava inscrito na natureza das coisas; as cores
eram sinais postos nas coisas para nos instruir sobre elas. Assim, o branco era a
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