A linguagem dos ambientes, objetos, espaços, tempos e símbolos

Autor:Márcio Túlio Viana - Raquel Portugal Nunes
Páginas:157-235
 
TRECHO GRÁTIS
3. a linguageM dos aMbienTes, objeTos,
esPaços, TeMPos e síMbolos
Eu me sinto como Carlos Magno.
(Michel Temer, descrevendo suas primeiras sensações à mesa da presidência)
1. OS AMBIENTES E SUAS FALAS
Conta um sociólogo(1) que, em torno dos anos 1940, nos subúrbios paulistas,
as famílias operárias começaram a incorporar pequenos jardins em suas casas,
imitando as mansões dos bairros chiques. Era um modo de expressar não só o que
elas queriam ser, mas o que — em pequena escala — já eram, exibindo um status em
ascensão. Além disso, para a mulher, aqueles pequenos jardins talvez anunciassem,
simbolicamente, um início de libertação das quatro paredes do lar; e sutilmente
sugeriam para a vizinhança todos os cuidados e caprichos que certamente existiriam
também nos interiores.
De forma análoga, o macacão cheio de graxa do operário mostrava e mostra
ainda uma vida de trabalho, e deste modo honrada, como nos ensinam as regras
morais; mas também pode indicar um trabalho apenas manual e monótono,
subordinado e mal pago, desgastante e sujo, e por isso sem tanto valor, mesmo
aos olhos de quem vive e pensa — como todos nós — num sistema capitalista.
Neste último sentido, a organização do jardim, tal como a limpeza da casa, se-
ria um modo de negar ou de ao menos compensar — contrastando — a própria
condição operária.
1.1. O privado e o público
Foucault nos ensina que o espaço não é neutro — mas recortado, enquadrado.
E não é uma coisa única. Pode ter
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(...) zonas claras e escuras, diferenças de níveis, degraus de escadas (...)
regiões duras e outras penetráveis (...) regiões de passagem, como ruas,
trens, metrôs (...) regiões abertas (...) regiões fechadas, como a nossa
casa (...).(2)
Espaços e ambientes podem compor o nosso próprio eu, como uma extensão
dele. É o que também vemos, de um modo especial, em nossa relação com o lar.
Diz Heller que “sentir-se em casa é uma emoção quadro, que dá sentido a
uma série de emoções mais específicas” — como a nostalgia, a intimidade... E cada
emoção se liga a uma experiência pessoal. Assim é, por exemplo, com a foto na
parede da sala, lembrando uma viagem; as vozes conhecidas, que transitam pelos
quartos; os cheiros do almoço, escapando das panelas; e até “as cores vistas de
uma janela”...(3)
Na cidade antiga, os mortos partilhavam com os vivos esse espaço sagrado.(4) Ali
eram enterrados e recebiam oferendas. Em troca, abençoavam e protegiam — como
deuses que eram — não só as pessoas da família, como os seus escravos e servos.
Por tudo isso, quando estamos em casa, só os amigos, parentes ou domésticos
vão entrando sem bater. Um estranho que invade o nosso lar também invade, de
certo modo, as nossas fotos, as nossas panelas, as nossas vozes, o nosso corpo.
Na sociedade industrial, a mulher do lar operário — quando não é, também
ela, operária — passa ali os seus dias, governando os objetos, ajeitando os lugares
na mesa, ditando o ritmo do fogão. Em certa medida, lembra o patrão em sua
fábrica,(5) embora tenha no marido, às vezes, uma espécie de patrão e não receba
qualquer retorno financeiro pelo seu trabalho.(6)
Já o espaço público é o extremo oposto do lar. O parque, a rua, a pra-
ça — são lugares de ninguém.(7) Ainda assim, o parque tem o seu guarda, ou
jardineiro, que pode acabar se sentindo também em casa. E então terá ciúmes
da grama onde o casal faz piquenique ou do banco onde o bêbado se espicha;
conhecerá cada pequeno detalhe do ambiente e não verá grande diferença
entre a sombra da árvore, refrescando o seu almoço, e o canto sossegado de
sua própria cozinha.
Na verdade, até quando o espaço é do outro — como a sala que ocupamos na
empresa(8) — podemos senti-lo um pouco como nosso. Mesmo no ambiente tirano
da fábrica o operário constrói pequenos ambientes ou momentos seus, como o
lugar onde sempre almoça, aquele canto para fumar no pátio, os minutos solitários
no banheiro...
Para disfarçar as sobras do metal líquido — que a empresa tentava, a todo
custo, evitar — operários de uma fundição em Contagem passaram a usá-las como
matéria-prima de miniaturas, que escondiam no armário. E então, às vezes, quan-
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do o chefe os ofendia, vingavam-se contemplando suas obras, que os faziam mais
livres, menos submissos...(9)
Quando o juiz permanece um longo tempo na mesma Vara, acaba se sentin-
do também em casa. Tudo ali parece seu. Por isso (e não apenas em razão de seu
poder) tende a se incomodar se alguém não age como visita, seja por se mostrar
irreverente, ou por estar falando alto, ou tirando as cadeiras do lugar.
No Supremo Tribunal Federal:
(...) o público é orientado a se levantar quando da entrada dos minis-
tros, que, em fila e conduzidos pelo presidente, se dirigem às bancadas
do plenário. À espera dos magistrados estão seus assessores, que lhes
puxam as cadeiras.(10)
Assim como as testemunhas reproduzem — pelo menos em teoria — o que
aconteceu na vida real, esta reprodução, em si mesma, é testemunhada pelo juiz,
pelos outros atores e pelo público presente — estudantes, curiosos, parentes ou
amigos das partes. E este ambiente pode pesar sobre os próprios depoimentos,
afetando o resultado final, ainda mais quando o caso tem apelo popular — como
em geral acontece no Júri.(11) Além disso, todos se sentem um pouco julgados en-
quanto contam suas histórias.
1.2. O lar e a rua
Numa cena de “Tempos Modernos”, Carlitos resolve tentar um novo traba-
lho, e se despede da namorada como se estivesse indo para a guerra. De modo
parecido, quando abrimos a porta da rua, abrimos também nossas vidas para as
oportunidades e os riscos:
À ação de mover a porta para sair para fora pode associar-se a capacidade
de mudar, de se tornar outra ou outras coisas (...). No exterior se estende
em todas as direções o império infinito das escapatórias e deserções, dos
encontros casuais e das possibilidades de emancipação. Se dentro é o
espaço da estrutura, fora é o do acontecimento.(12)
Mas se a rua é o lugar do múltiplo, do incerto, do variado, talvez haja um
pouco de rua na sala de audiências. Ao abrirmos a sua porta para entrar, é como
se abríssemos a porta de casa para sair. De fora, vem uma lufada de vento — o
vento do mundo.
Pessoas as mais variadas entram e saem por ali. Pobres e ricos, negros e
brancos... Até os papéis estão teoricamente disponíveis, já que todas, ou quase
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