Interdisciplinaridade nos estudos organizacionais: um novo paradigma

Autor:Selda Engelman; Cláudia Maria Perrone
Cargo:Administradora, Mestre em Psicologia Social e Institucional UFRGS, Doutoranda em Educação, Professora da FSG./Psicóloga, Professora da UFSM.
Páginas:105-115
RESUMO

Este artigo tem como objetivo propor questões pontuais entre as noções de campo, produção de conhecimento e estudos organizacionais, visando à sinergia destes com as novas formas organizacionais do contemporâneo. Nosso objetivo é o de levantar questões e trazer novas vozes que auxiliem a compreensão das organizações complexas e novas perspectivas para o seu entendimento. Consideramos que uma &u... (ver resumo completo)

 
ÍNDICE
TRECHO GRÁTIS

Page 106

1 Introdução

Este artigo tem como objetivo a problematização de uma posição epistemológica nos estudos organizacionais, considerando as noções de campo, produção de conhecimento e estudos organizacionais, visando à sinergia com as novas formas do contemporâneo. Aceitamos o desafio de pensar os estudos organizacionais interdisciplinares, ou melhor, transdisciplinares, o que nos força a depurar vários conceitos, buscando a aproximação de diversas conversações.

Pretendemos levantar questões e trazer novas vozes que auxiliem a compreensão das organizações complexas e novas perspectivas para o seu entendimento, tendo em vista, principalmente, a idéia de que novas organizações significam mudanças sociais, econômicas e políticas, sempre a exigir novos aportes teóricos.

2 Desenvolvimento
2. 1 O contexto das informações

As décadas de 70 e 80 do século XX foram períodos conturbados de reestruturação econômica, reajustamento social e político. No espaço social criado pelas oscilações e incertezas, nova experiências ocorrem nas organizações e na vida social. O desafio para as organizações é o da flexibilização, que contrasta com a rigidez das teorias clássicas. Surgem inovações na produção, no fornecimento de serviços financeiros, nos mercados e o desafio do constante de aprimoramento comercial, tecnológico e organizacional.

Urge o surgimento de técnicas organizacionais centradas na solução de problemas, nas respostas rápidas e, com freqüência, altamente especializadas. Isso se traduziu na aceleração do ritmo de criação e inventividade, aumento da competição, novas tecnologias produtivas (automação, robôs) e novas formas organizacionais (como o sistema de gerenciamento de estoques just-in-time).

A organização adaptou-se a dois desenvolvimentos paralelos e de extrema importância: as informações precisas e atualizadas e a capacidade de resposta quase instantânea. O acesso à informação, assim como o seu controle, aliados a uma forte capacidade de análise dos dados, tornaram-se essenciais à coordenação centralizada de interesses corporativos descentralizados. A capacidade de resposta rápida, a leitura antecipatória das “tendências”, as variações das taxas de câmbio, as mudanças da moda têm caráter crucial para a sobrevivência na atualidade.

Page 107

A nova centralidade da informação gerou um amplo conjunto de consultorias e serviços altamente especializados, capazes de fornecer informações quase em tempo real sobre as tendências do mercado. Intensifica-se a importância das redes, da liderança participativa, dos alvos múltiplos, da gerência estratégica e da organização democrática com preocupações sociais, a intitulada responsabilidade social. A flexibilização também exige a desregulamentação e a ênfase nas negociações (HARVE, 1992).

Uma simples disciplina não é suficiente para dar conta de tamanha transformação no mundo organizacional. As exigências contemporâneas englobam um atravessamento disciplinar com caráter complexo, o que detalharemos com precisão no decorrer do ensaio. Como apontou Clegg (1990), as organizações modernas perderam espaço para a organização orgânica e flexível.

A condição de reflexividade será o fundamento da nova organização, dotada de aprendizado organizacional permanente e auto-regulador (autopoiético) (MORGAN, 1996; CLEGG e HARDY, 1999; MATURANA e VARELA, 1995). A complexidade das organizações no contemporâneo exige inter e transdisciplinaridade, ou seja, o reconhecimento de uma grande rede de conversações disciplinares (CLEGG e HARDY, 1999).

2. 2 Multi, inter e transdisciplinaridade nos estudos organizacionais

Vivemos em uma “modernidade líquida”, tomando a definição do sociólogo Bauman (2001). Os sólidos, tais como os grandes prédios, fábricas e construções foram “derretidos”, tornaram-se fluidos, leves, com alta mobilidade. Da busca pela ocupação do espaço pelas instituições, observou-se uma transferência para a dominação do tempo em consonância com a inovação tecnológica. Conseqüentemente, modificam-se as configurações, o desenho e a própria natureza das organizações, compondo-se uma nova dimensão estética de seus corpos.

As fronteiras externas que antes delimitavam a organização foram derrubadas à medida que estas se fundem e passam a formar cadeias, conglomerados, redes e alianças estratégicas, pondo em análise o próprio foco organizacional. As fronteiras internas se desintegram e se metamorfoseiam com as novas organizações pós-fordistas, mais ágeis, flexíveis e menos formatadas. São como organizações-moldes que passam a ser modulações, mutáveis e fluidas. A fixação em um território seguro e permanente cede à multiespacialidade com a possibilidade de ocupar várias regiões ao mesmo tempo e se deslocar quando as contingências indicam melhores oportunidades.

Page 108

As organizações contemporâneas que se desprenderam da instrução e da vigilância acirrada e sistematizada sobre seus membros, assim como da norma e da hierarquia pela qual eram regidas e racionalizadas. A imagem da organização máquina, mecânica, padronizada e previsível se desconstrói frente à organização como cérebro e como sistema. A colaboração da biologia se expande para a teoria da organização que passa a ser pensada como organismo autopoiético, capaz de auto-reprodução em acoplamento com o ambiente. A organização, como parte de seu respectivo ambiente, desfaz a idéia do ambiente como um campo independente, pois esta constrói e é construída por ele (MORGAN, 1996; MATURANA e VARELA, 1995).

Muitas organizações tayloristas, fordistas tornaram-se organizações virtuais, em rede, globais, caracterizadas como “pós-modernas”. A junção de competição e cooperação realizada através de alianças estratégicas, de redes, de construção de pólos industriais permite um intercâmbio entre diferentes organizações tanto para a resolução de questões comuns vinculadas a clientes, fornecedores...

Para continuar a ler

PEÇA SUA AVALIAÇÃO