Entrevista com Julien Duval

Autor:Camila Gui Rosatti, Marcia Consolim
Páginas:373-403
RESUMO

Esta entrevista é resultado de diversos encontros que tivemos, em São Paulo e em Paris, entre dezembro de 2016 e janeiro de 2017, e sua forma final foi retrabalhada com intervenções por escrito do entrevistado6. O objetivo foi conhecer sua trajetória e seus interesses de pesquisa, bem como entender sua participação no grupo fundado por Pierre Bourdieu e, mais largamente, o próprio empreendimento... (ver resumo completo)

 
TRECHO GRÁTIS
DOI: http://dx.doi.org/10.5007/2175-7984.2018v17n38p373/
373373 – 403
Entrevista com Julien Duval1
Realizada e traduzida por:
Camila Gui Rosatti
doutora em sociologia pela
Universidade de São Paulo (USP)
Márcia Consolim
professora da Universidade
Federal de São Paulo (UNIFESP).
Apresentação
Julien Duval (1972-), sociólogo francês formado pela École Normale
Supérieure – Cachan, é pesquisador do Centre National de la Recherche
Scientique – CNRS e, atualmente, ocupa o cargo de vice-diretor do Cen-
tre Européen de Sociologie et de Science Politique – CESSP, centro de
pesquisa fundado por Pierre Bourdieu em 19682. Além de contribuir para
a organização do legado de Pierre Bourdieu, Duval tem se dedicado a in-
vestigar as relações entre as atividades culturais e a economia, enfocando,
em particular, as transformações das atividades e das práticas culturais na
França nas últimas três décadas, ou seja, no contexto do crescimento da
“lógica econômica” e do neoliberalismo. Publicou livros sobre o jornalismo
econômico, o sistema de proteção social e o cinema francês, entre os quais
destacamos: Critique de la raison journalistique (Le Seuil, 2004); Mythe du
‘trou de la Sécu (Raisons d’agir, 2007); Le cinéma au XXe siècle: entre loi du
1 Agradecemos a Julien Duval pelos esclarecimentos referentes às dúvidas de tradução.
2 O CESSP é formado por cerca de cinquenta pesquisadores de três instituições (Universidade Paris I, CNRS e
EHESS). Foi fundado, em 2010, a partir da fusão do Centre de Sociologie Européenne (CSE-EHESS) e do Centre
de Recherches Politiques (CRPS-Sorbonne). Trata-se de uma unidade mista de pesquisa em ciências sociais,
agrupando principalmente sociólogos e cientistas políticos, mas também antropólogos e economistas. Cf.
http://www.cessp.cnrs.fr/spip.php?rubrique6&lang=fr (Nota das Tradutoras – N.T.).
Entrevista com Julien Duval | Camila Gui Rosatti e Márcia Consolim
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marché et règles de l’art (CNRS, 2016), além de diversos artigos na revista
Actes de la Recherche en Sciences Sociales3.
Duval também tem se dedicado a debater e editar parte da produção
intelectual de Pierre Bourdieu. Ao completar trinta anos da publicação
de A Distinção, organizou, junto com Philippe Coulangeon, um balanço
da atualidade e do espraiamento da clássica e controversa obra de 1979,
reunindo mais de trinta especialistas franceses e estrangeiros, que discutem
as transformações da sociedade contemporânea à luz das práticas culturais
e das apreciações estéticas4. Além disso, no que se refere à sistematização
da obra de Bourdieu, editou, junto com Patrick Champagne, Sociologie
Générale I e II e Anthropologie Économique, três livros reunindo os cursos
ministrados no Collège de France na primeira metade dos anos 1980 e iní-
cio dos anos 19905.
Esta entrevista é resultado de diversos encontros que tivemos, em São
Paulo e em Paris, entre dezembro de 2016 e janeiro de 2017, e sua forma
nal foi retrabalhada com intervenções por escrito do entrevistado6. O ob-
jetivo foi conhecer sua trajetória e seus interesses de pesquisa, bem como
entender sua participação no grupo fundado por Pierre Bourdieu e, mais
largamente, o próprio empreendimento de pesquisa construído coletiva-
mente com as diversas gerações de “alunos-herdeiros”. Duval pertenceu
3 No Brasil, podem ser mencionadas as seguintes publicações: “Analisar um espaço social”, in Serge Paugam
(coord.), A Pesquisa Sociológica, trad. Francisco Morás, Petrópolis, Editora Vozes, 2015, pp. 218-237 e os
Verbetes “Distinção”, “A distinção: crítica social do julgamento”, “Estilos de vida”, “Gosto”, in Afrânio Men-
des Catani, Maria Alice Nogueira, Ana Paula Hey, Cristina Carta Cardoso de Medeiros (org.), Vocabulário
Bourdieu, Belo Horizonte, Autêntica, 2017, p. 146-148, 148-151, 187-189, 208-210. Outros trabalhos de sua
autoria devem ser publicados nos próximos anos: o artigo “Sobre a Transformação do Sistema dos Gostos na
França” em PULICI, Carolina & FERNANDES, Dmitri. (Orgs.) As lógicas sociais do gosto: condicionantes das
preferências, hierarquias simbólicas e legitimidades culturais. São Paulo, Fap-Unifesp, [prelo].
4 Cf,. Trente ans après la Distinction (La Découverte, 2013) e The Routledge Companion to Bourdieu’s Distinc-
tion (Routledge, 2014).
5 BOURDIEU, Pierre. Sociologie Générale. Cours au Collège de France – 1981-1983. Paris, Raisons d’Agir/Seu-
il, 2015. Sociologie Générale. Cours au Collège de France – 1983-1986. Paris, Raisons d’Agir/Seuil, 2016.
Anthropologie économique. Cours au Collège de France – 1992-1993, Paris, Raisons d’agir/Le Seuil, 2017, 341 p.
6 Duval esteve no Brasil em dezembro de 2016, onde apresentou suas pesquisas na Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), a convite do Consulado Francês no Brasil; na Universidade Federal de São Carlos (UFS-
Car), a convite de Roberto Grun; na Universidade de São Paulo, a convite de Graziela Perosa (EACH-USP) e
no âmbito do Seminário Internacional de Sociologia, evento organizado pelos mestrandos e doutorandos do
Programa de Sociologia (FFLCH-USP). Aproveitamos para agradecer Graziela Perosa, que gentilmente leu e fez
comentários à versão final da entrevista.

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