Crise mundial e a trajetória do Brasil, entre 2008 e 2015

AutorJoaci de S. Cunha - Maicon Andrade - Catarina Lopes - Manoel Nascimento - Thaianna Valverde
CargoAssessor do CEAS, Prof., Dr. em História Social, Pós-Doutorando Políticas Sociais e Cidadania e coeditor dos Cadernos do CEAS - Assessor do CEAS, agrônomo e Mestre em Geografia - Assessora do CEAS e licenciada em Teatro - Assessor do CEAS, Advogado e mestrando em Arquitetura e Urbanismo - Assessora do CEAS, Advogada e Mestre em Arquitetura e ...
Páginas4-46
Crise mundial e a trajetória do Brasil, entr e 2008 e 2015
Caderno s do CEAS, Salvador, n. 234, p. 4-46, 2015. 4
CRISE MUNDIAL E A TRAJETÓRIA DO BRASIL, ENTRE 2008 E 2015
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Resumo
Este texto analisa a conjuntura correlacionando a
crise econômica e política brasileira, com a
dinâmica da crise financeira do capital mundial.
Para os autores, a conjuntura de 2015 resulta da
confluência de um triplo movimento, a saber: as
limitações do modelo de desenvolvimento
brasileiro, dependente da agro-minero-exportação;
a subordinação do Estado brasileiro ao “sistema da
dívida pública”, um sorvedouro do capital
especulativo; e a desestruturação da “hegemonia às
avessas” do projeto petista sobre o aparelho de
estado.
Palavras-chave: crise mundial; política nacional;
economia brasileira; governos petistas; movimento
social conservador.
INTRODUÇÃO
Discutir a conjuntura brasileira dos últimos seis anos é o objetivo deste texto, cujo recorte
temporal tem uma motivação mais política que metodológica. Esse foi o lapso de tempo em
que os Cadernos deixaram de ser publicados. Sem a pretensão de dar conta da complexidade
dos processos em curso, propusemo-nos a avaliar as possíveis continuidades e rupturas
sociais, econômicas e políticas observáveis no Brasil nesse período. A problemática que
orienta a construção desta análise centra-se na articulação entre a crise econômica e política
brasileira, explicitada neste ano de 2015, com a dinâmica da crise do capital no plano
mundial.
A perspectiva que orienta esta análise parte da hipótese de que a crise mundial traduz
dificuldades estruturais, talvez intransponíveis enfrentadas pelo capital para relançar um novo
ciclo prolongado de crescimento e que os curtos períodos de ascensão são cada vez mais
limitados a certas regiões do planeta, menores em sua duração e, o que é mais grave, a custas
da destruição econômica e social de outras regiões e do meio ambiente. Isso se verifica desde
o início da década de 1970, no contexto de uma crise clássica de superprodução, quando a
1 Os autores agradecem a Ângela Borges (coeditora - UCSal) pelas valiosas co ntribuições, várias delas,
incorporadas ao texto.
Joaci de S. Cunha
Assessor do CEAS, Prof., Dr. em História
Social, Pós-Doutorando Políticas Sociais e
Cidadania e coeditor dos Cader nos do CEAS;
Maicon Andrade.
Assessor do CEAS, agrônomo e Mestre e m
Geografia;
Catarina Lopes
Assessora do CEAS e licenciada em Teatro;
Manoel Nascimento
Assessor do CEAS, Advogado e mestrando em
Arquitetura e Urbanismo;
Thaianna Valverde
Assessora do CEAS, Advogada e Mestre em
Arquitetura e Urbanismo.
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Caderno s do CEAS, Salvador, n. 234, p. 4-46, 2015. 5
forma financeira especulativa assumiu a supremacia do processo de valorização do capital.
Essa foi, ao lado de uma agressiva precarização do trabalho, a alternativa das classes
dominantes para fugir à persistente queda da taxa média de lucro da economia capitalista
mundial, problema para o qual o então vigente modelo keynesiano não encontrava solução
(MÉSZÁROS, 2000).
Desde então, por um lado, observa-se a desmontagem do estado de bem-estar onde ele fora
implantado, a derrocada dos governos socialdemocratas, a reconfiguração dos estados
desenvolvimentistas e intervencionistas na periferia do sistema, a flexibilização da legislação
social e a precarização do trabalho em todo o mundo. Por outro lado, em todo o mundo, a
maior parte da poupança acumulada nas mãos das elites e dos fundos de pensão deslocou-se
progressivamente dos investimentos produtivos para a esfera financeira. Nessas décadas, a
mundialização do capital financeiro ensejou a proliferação de todo tipo de mercados
especulativos, tornando o modo de produção capitalista cada vez mais rentista e ampliando
consideravelmente o risco de crises sistêmicas.
Na Ásia, desde o final da década de 1970, a China desenvolveria um tipo específico de
capitalismo a partir das reformas econômicas desencadeadas por Deng Xaoping, comandado
por um governo central de partido único (Partido Comunista Chinês) e centrado, na sua
primeira fase, na produção de mercadorias a baixo custo. O sucesso dessa experiência
transformou a China no maior fornecedor de manufaturados para o mundo e especialmente
para o Ocidente, que para lá transferiu suas fábricas. Os EUA se tornaram os maiores
compradores dos produtos chineses e estes os maiores investidores em títulos da dívida
pública estadunidense. O Brasil por sua vez, depois de décadas de industrialização, voltou-se
para a China, retornando a sua condição histórica de exportador de produtos primários,
minerais e agrícolas, demandados pelo intenso crescimento asiático.
Entre 2003 e 2013, o Brasil viveu um período de relativo crescimento puxado pelo
capitalismo chinês e potencializado pela expansão do mercado interno, estimulada pela
valorização real do salário-mínimo, transferências de renda, ampliação do crédito ao consumo
e pelos investimentos públicos. Em conjunto, esses fatores viabilizaram a inclusão de largos
segmentos da população pobre ao mercado consumidor de bens duráveis e de serviços, o que
representou um claro ganho de bem-estar, com forte impacto político-eleitoral no período.
Porém, com o aprofundamento da crise mundial, que trouxe a China para uma situação
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clássica de superprodução, enquanto EUA e Europa se debatem com os efeitos de uma pletora
de capital especulativo, o Brasil volta a viver uma grave instabilidade econômica e política.
Partindo desse enquadramento, esta análise de conjuntura compreende as linhas gerais da
crise em curso no Brasil, necessariamente, a partir das relações do país com a esfera do
capitalismo mundial. Sinteticamente, a hipótese aqui desenvolvida sugere a conjuntura
brasileira, em 2015, como resultante da confluência de um triplo movimento: a) as
limitações do modelo de desenvolvimento baseado no capital agrário impactado pelo início da
fase descensional do ciclo de crescimento chinês; b) o aprisionamento do Estado ao sistema
da dívida pública, como mecanismo de valorização do capital financeiro especulativo,
mundialmente hegemônico e do qual o Estado brasileiro também é refém; e, c) o processo de
desestruturação da hegemonia política petista, do qual a atual crise política é apenas um
momento específico.
Conceitualmente, hegemonia pressupõe, além de clareza sobre o projeto de sociedade
almejado, capacidade para convencer e dirigir aliados e camadas sociais afins a apoiarem-no
(Gramsci, 1987). Isto que foi pensado para um projeto de classe, em termos gerais, vale
também para um projeto de governo capitalista, de tipo sócio liberal, como o que propôs o
PT, e que foi chamado por Francisco de Oliveira (2010), de “hegemonia às avessas”, isto é,
um governo em que parte ‘dos de baixo’ dirige o Estado executando essencialmente o
programa ‘dos de cima’, mas, assegurando àqueles algumas concessões em termos de
políticas públicas. O que vivemos em 2015, com a crise em curso, é a desmontagem dessa
fórmula de hegemonia? A resposta a esta questão exige uma reflexão mais ampla dos
processos em curso nos últimos anos.
ANALISANDO A CRISE MUNDIAL
Entre junho de 2003 e julho de 2008 ocorreu o maior ciclo de expansão da economia nacional
desde 1980, quando a crise mundial provocou a insolvência da dívida externa brasileira.
Embora com potencial semelhante ao dos anos de 1980, a crise mundial de 2008, no Brasil,
foi amenizada por um pacote de estímulo ao consumo, que limitou a recessão a um período de
seis meses, mas impediu o país de crescer em 2009.

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