A concretizacao inventiva de si a partir da perspectiva do outro: Notas a uma Antropofilosofia Decolonial em Viveiros de Castro/The inventive embodiment of oneself from the perspective of the other: Notes to a Decolonial Anthropophilosophy in Viveiros de Castro.

Author:Assy, Bethania
 
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Introducao

O que ainda dizer do Homem? Seu fim ja foi anunciado e nao e de hoje. A critica ao conceito de Homem e, talvez, tao antiga quanto o proprio conceito e, inobstante a ancestralidade da questao, a factualidade de seu fim se apresenta como um persistente (e resistente) embaraco para a filosofia ocidental. A questao a respeito do Homem (do humano, da humanidade, de sua cultura, enfim) parece ser tanto inevitavel como intransponivel. A dificuldade no trato do tema e tanto signo do peso metafisico que a tradicao do pensamento ocidental lhe impoe, como da fissura felure, crack) de todo seu edificio axiomatico, apontando para outras dimensoes de mundo.

A fenomenologia desse encontro com o absolutamente diferente e concretamente experimentada (e experienciada) a partir daquilo que a antropologia denomina de "choque cultural" (1), consequencia de um trabalho de campo (2) responsavel nao somente pela invencao do alheio, mas tambem pela contrainvencao do que ha de mais proprio aquele que passa pelo experimento/pela experiencia (3). Assim, se o problema do Homem no paradigma da filosofia ocidental parece se consubstanciar na constante crise face ao esgotamento da propria questao, talvez seja o momento de considerar outras vias de inquiricao que levem em conta a experiencia do "choque" e possibilitem a contrainvencao daquilo que esta mais proximo (4).

E preciso considerar, com as Metafisicas Canibais de Viveiros de Castro, a necessidade de um Anti-Narciso (5). Isto e, e preciso repensar a relacao entre o humano e o nao-humano de modo a permitir a (contra-)invencao de novos registros de possiveis, ao contrario da solucao usual que passa pela constante reativacao da mesma questao como mera funcao fatica (6). Nesse intuito, se a filosofia ocidental faz grande questao do conceito/problema da humanidade humana, Viveiros de Castro denuncia a condicao dos indios amazonicos (em especial o caso dos Arawete) que problematizam, ao contrario, o conceito/problema dos corpos e suas respectivas perspectivas (7).

Considerar o esgotamento do problema da humanidade humana a partir da assimetria (dos corpos) aberta pelo perspectivismo amerindio nao implica uma mera reabilitacao do conceito/problema, reavivando as cores e a vivacidade de um paradigma cujo horizonte aponta para o esgotamento. Nao se trata de um possivel (ou desejavel) retorno em direcao a um ponto supostamente "mais original" ou a uma "tradicao perdida". O projeto a disposicao no perspectivismo amerindio, se levado a serio, nao e conservador ou reacionario, mas simplesmente selvagem (8). Muito mais do que simplesmente inverter ou reverter a summa divisio tradicional (i.e., "tradicional" aos olhos do ocidente (9)) entre natureza e cultura, o perspectivismo amerindio sugerido por Viveiros de Castro propoe a problematizacao das assimetrias constitutivas de cada ponto de vista particular (10). Relacoes diferenciais que nao se deixam sedentarizar. Contra a logica das Grandes Partilhas sedentarias, propoe-se a disseminacao de uma logica radicalmente diferenciante (11). O pensamento amerindio nao e simplesmente o contrario do europeu, mas o seu absolutamente outro, afinal, na analise das multiplicidades indiciadas nos dualismos, percebe-se que o "trajeto nao e o mesmo nos dois sentidos" (12). Dizendo em outras palavras, o selvagem nao e um anti-europeu. Aquilo que europeu enxerga no selvagem e incomensuravel em face daquilo que o selvagem ve quando esta diante de um europeu.

Como hipotese de trabalho, acredita-se que a experiencia de pensamento viabilizada pela antropologia dos povos amerindios permite nao simplesmente repensar a relacao entre humanos e nao-humanos, ou entre natureza e cultura, mas, ao exigir um especial engajamento de todos que entram em contato com a problematica associada a esses dualismos (13), garante sustento e apoio para a critica das fronteiras e obstaculos tradicionais erigidos pela imagem dogmatica do pensamento filosofico (i.e., a "nossa" filosofia, segundo Levi-Strauss (14)).

Se o livro intitulado "Metafisicas Canibais" e uma resenha acabada de uma obra inacabada (e infinita), que tera sido denominada "Anti-Narciso: Da antropologia como ciencia menor" e cujo objeto e a inscricao da antropologia americanista no seio de uma "teoria-pratica da descolonizacao permanente do pensamento" (15), este breve artigo corresponde a um comentario da enesima ordem que, eo ipso, propoe-se a jogar o jogo da leitura entre a obra presente (Metafisicas Canibais) e a ausente (O Anti-Narciso) e, tal como um fractal, abrir-se na abertura que nos lega o pensamento amerindio. Mise en abyme antropofilosofica (16).

O presente artigo propoe um debate em duas partes com o perspectivismo amerindio teorizado pelo antropologo brasileiro. Em um primeiro momento, serao expostos os principais delineamentos dessa antropofilosofia, concebida como uma rede de relacoes (17). "Viveiros de Castro" interessara menos como nome proprio (eventual suporte de um argumento de autoridade qualquer), do que como cluster das diversas linhas de forca que o atravessam e constituem o plano de suas Metafisicas Canibais.

Na segunda parte, tentar-se-a apontar brevemente quais as implicacoes eticas desse projeto de "descolonizacao continua do pensamento" a partir da problematizacao das assimetrias dos corpos entre si. Se, diferentemente do pensamento europeu, a humanidade e assumida pelos amerindios como elemento dado a todas as individualidades existentes (18-19), que humanidade e essa que, paradoxalmente, deve ser constantemente reafirmada in actu em sua relacao com o corpo (20), sob pena de perecer diante da logica da predacao? Nao ha qualquer privilegio metafisico do homo sapiens (do "homem humano") no contexto da "ontologia amazonica da predacao" (21) (que, todavia, antes de ser uma ontologia e uma pragmatica radical), pois, onde ha intencionalidade por todo canto, o humano nao pode estar inequivocamente seguro de sua condicao.

I.

As Metafisicas Canibais, i.e., tanto o nome de uma resenha acabada de uma obra inacabada como o possivel epiteto para a antropologia amerindia, atendem a um movimento que as atravessa transversalmente na forma de um agenciamento entre tres interlocutores que se relacionam em rede (i.e., enredam-se), quais sejam: (i) o autor do denominado "Anti-Narciso", (ii) Deleuze e Guattari e (iii) Levi-Strauss. Muito mais do que pontos dos quais partiriam determinadas linhas de coerencia, esses nomes proprios sao na verdade fruto das confluencias e inflexoes das multiplas linhas de forca que cortam o pensamento de Viveiros de Castro (22). A confluencia dessas linhas multiplas, uma se envelopando na outra, desenha o milieu hiperbolico por onde o pensamento selvagem e capaz de proliferar (23).

Essa antropologia possui um objetivo duplo, qual seja, promover num unico movimento a leitura cruzada entre antropologia e filosofia, informada tanto pelo pensamento amazonico como pelo "estruturalismo dissidente" (24) de Gilles Deleuze e Felix Guattari. Com o desenvolvimento desses objetivos, percebe-se que o destino visado por esse movimento tambem e duplo na medida em que pretende "aproximar-se do ideal de uma antropologia enquanto exercicio de descolonizacao permanente do pensamento e propor um outro modo de criacao de conceitos que nao o 'filosofico', no sentido historico-academico do termo" (25). Os deslocamentos mutuos entre (uma) filosofia e (uma) antropologia, portanto, caracterizam o Anti-Narciso na sua critica a imagem do pensamento selvagem (26).

O projeto duplo com duplo objetivo e ele-proprio desdobrado em outras duas experiencias tipicas do pensamento amerindio, caracterizadoras de uma teoria cosmopolitica indigena (27), quais sejam: (i) o perspectivismo e (ii) o multinaturalismo. O multinaturalismo e perspectivista, na exata medida em que o perspectivismo e multinaturalista. Ambos os conceitos antropofilosoficos se entrelacam e formam um quiasma na tarefa de traducao/transformacao do pensamento selvagem e, em especial, do pensamento amerindio que agencia a multiplicidade na cultura, ou ainda, a cultura enquanto multiplicidade, anunciando o surgimento de uma outra antropologia na exata medida que, com Viveiros de Castro (e sua rede de interlocutores), "[t]oda experiencia de um outro pensamento e uma experiencia sobre o nosso proprio" (28).

O quiasma entre perspectivismo e multinaturalismo e sentido como uma especie de curto-circuito entre duas pretensoes aparentemente contraditorias, quais sejam: (a) o perspectivismo amerindio pressupoe que cada ente ve a si proprio (e aos seus) como humanos, ao passo que todos os demais sao considerados como nao-humanos, seguindo uma logica de correspondencias no seio das relacoes de predacao (ou seja, os jaguares seriam humanos entre os jaguares, mas espiritos-predadores para os queixadas e assim por diante seguindo a contiguidade das diferencas corporais); (b) o multinaturalismo se caracteriza pela afirmacao da humanidade (ou da cultura) como caracteristica universal de todos os entes inseridos no contexto da cosmopolitica de predacao, o que daria suporte teorico a "doutrina das roupas animais" (29).

Assim, a humanidade performada do perspectivismo e a humanidade universal do multinaturalismo se agenciam no estruturalismo sem estrutura da mitologia amerindia. Essa antropologia menor, declaradamente inspirada na filosofia de Deleuze e Guattari, desenha uma cartografia de movimentos aberrantes (30) implicados no perspectivismo multinaturalista a partir das categorias-mestras de alianca e filiacao. Como propoe "a questao e (...) a possibilidade de conversao das nocoes de alianca e de filiacao, classicamente tomadas como as coordenadas da sociogenese humana tal como efetuada no elemento do parentesco, em modalidades de abertura para o extra-humano" (31).

Viveiros de Castro, ao analisar o corpus da obra de Deleuze e Guattari, reconhece que o Anti-Edipo "esta firmemente amarrado a uma concepcao antropocentrica da socialidade; seu...

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