Conclusão: dirética, uma esperança indulgente

Autor:Antonio Araújo
Páginas:173-181
 
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Saibamos metabolizar que o Iluminismo é, nevralgicamente, dissuasão carismática de viés luterano; e o iluminista, já sabe!81Nutre e, não obstante, vê-se “constrangido por modernidade global em seu alcance, atéia em suas intenções e rude em seus métodos” (ARAÚJO, 2004, p. 132). É brio, altivez ou dignidade irascível, ode ao terror de subterfúgios e desamparos, egoísmo adolescencial e sem nostalgias, comiseração ou étimos. Moralismo colérico, fundamentalista, extremista, tantas vezes apático e claudicante. Destila retaliações, escusas de ópio e chaga, num elogio a incipiências. Agiganta-se qual praga, remoinho de gafanhotos-grileiros que, exponencialmente, despeja seus detritos e dejetos a mares, lagos, platôs, culturas. Genealogia e mitologia de interesses privados. Insípido, inodoro, mas não incolor, pois fala britânico (ou texano) francês, que ausculta e verbaliza em alemão. Não é rio escatológico, apenas igarapé de fragrância inebriante, exuberante, eficiente, cuja tecnociência rasa encerra priorado e protetorado ao «como fazer», esgrimindo-nos com o florete do paternalismo e retalhando o «por que fazê-lo». Valorizando mais a cibernética da inteligência artificial do que o alento e beleza perspectivista daquelas humanidades animal, pessoal e vegetal. Parafraseemos, contudo, a esperança resiliente de Mahatma Gandhi: era alguma “se elevou jamais sem ter-se purificado ao fogo do sofrimento” (apud RÓNAI, 1985, p. 627).

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A modernidade é lago de minúsculo calado. E o Iluminismo penal, teu cisne inoxidável, brilhante. Um drone nuclear de aço herético, errático, com autonomia de voo multinacional e controle remoto, desde usinas cilíndricas, subterrâneas, profundas: silos de termopavor. Rapina, esparramando asas de “misericordiosa” liberdade a rincões. Sua lascívia (sadismo) é tanta, que revoa, aninha-se, copula (violenta) perspectivas, ovulando argento82 e semeando, arremessando ganância à cavitação de bens jurídico-liberais. Indiferente, subverte diferenças aonde quer que vá. Atrofia, hiberna, arresta e sonambuliza culturas, assediando, eutanasiando valores locais qual inflamações, apendicites. Inocente, benevolente e piedoso lar de bárbaros, orna-se por véu de cálido azul, que enseja vinganças, idolatrias, paralisias burgo-clericais, e não sinapses.

E sua liberdade é claraboia que deixa entrar a luz e glossário solares da certeza? Ou (crepúsculo) corpúsculo gris surfando, prodigiosamente, o Big Bang da memória energética de «todos» nós, por desconcertante apreço à cacofonia de reações instantâneas, irrefletidas?

Iluminismo czar, guardião, bibliotecário de uma vida “livre” que é céu de viveiro e animosidades, a reabilitar, diariamente, vivenda impostora, ludíbria.

Não há libertação (emancipação), somente «liberalização» enquanto catequese, conversão, colonização. Liberal e liberalizado se agrilhoam reciprocamente, sob a profecia benedettiana de irresponsabilidade amásia: “sé que voy a quererte sin preguntas, sé que vas a quererme sin respuestas” (BENEDETTI, 1995, p. 68).

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Quando mais não seja para expiar o fatalismo e portfólio iluministas de bens jurídicos universais, convenhamos que um fracasso (sintoma) importante da pretensão civilizatória moderna é o de não insuflar uma catarse, a depuração do ser-livre. De que modo eximir-se-ia, ou faria tal purgação? Convolando, perspectivamente, o despeito da unidade artificial em respeito à diversidade natural.

Fracasso manifesto? Quiçá hiperativa, exímia e utilitária virtude, aspiração. Bronzeada e lubrificada pelo argumento da fatalidade, seu êxito despersonaliza ou terceiriza culpas da Joint Chiefs of Staff, emboscando, agonizando, erguendo muros tácitos de afago, adaga, amnésia, apatia. Promissor comércio de impunidades, segue à risca um código de penas e desesperos que é martelo contundente: apenas crava, acalcanha, repisa. E só fortuitamente seus golpes saem por culatras, ricocheteiam.

Sobre fatalistas, vulgarização do sentir e o vaidoso «eu-felino», a antologia de um ortônimo-lírico Fernando Pessoa83(1942) recitou:

Gato que brincas na rua Como se fosse na cama, Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes,

Que tens instintos gerais E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim, Todo nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim, Conheço-me e não sou eu.

No entanto, o frenesi seletivo, meticuloso e libertário do Iluminismo decantou, precipitou minuciosa cadeia de etno(zoo)lógicos habitada por le-

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giões, bolsões, becos ou guetos de idiossincrasias e culturas tidas como indigentes, arcaicas, periféricas, ociosas, exóticas, andarilhas, charlatães, ásperas, obsoletas, degradadas, antiquadas, bastardas..., porque não avidamente consumidoras...

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