A Agroindústria na Região Nordeste

Autor:Airton Saboya Valente Junior - José Ailton Nogueira dos Santos - Gilzenor Satyro de Souza
Páginas:45-67
 
ÍNDICE
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1. Introdução

A agroindústria compreende os processos de estocagem, manejo, beneficiamento, preservação e transformação industrial de matérias-primas de origem agrícola, pecuária, florestal e pesqueira. Isto implica a integração entre a produção, abastecimento de matérias-primas e transformação, além da instalação de unidades de processamento próximas aos locais de produção (IICA, 1988).

O segmento de processamento de matérias-primas (vegetal e animal) tem o potencial de proporcionar uma série de benefícios para o setor rural, dentre os quais destacam-se a integração da produção agropecuária com os processos de transformação, o prolongamento da vida útil dos bens agropecuários e pesqueiros, a distribuição adequada dos produtos em uma determinada região, além de gerar novas oportunidades de trabalho (Boucher e Riveros, 2000).

Essa atividade econômica atua ainda como elo entre a agropecuária e a indústria, articulando-se para a frente com o segmento de embalagens e o processamento agroindus-trial, e para trás com a indústria de insumos (pesticidas, fertilizantes, rações, material de embalagem, aditivos, aromatizantes etc.), de equipamentos para a agricultura, além dos serviços. A agroindústria inclui ainda a produção de energia a partir das biomassas.

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A relação mútua entre agricultura, indústria e serviços tem sido um dos fatores determinantes do processo de crescimento da economia de diferentes países. O crescimento desses três setores da economia está estreitamente entrelaçado, de modo que um depende do outro para se desenvolver com sustentabilidade.

Dessa forma, a agroindústria representa um importante instrumento de apoio e dinamização da economia em áreas rurais, acrescentando valor aos produtos primários, diminuindo perdas, evitando deteriorização da qualidade, ampliando mercados e gerando renda e emprego (rural e urbano). Além disso, atua como indutor de modernização e eficiência do setor agropecuário, fomenta a introdução de novas atividades nas comunidades do interior e tem um efeito indireto no emprego rural.

As agroindústrias constituem-se em atividades seculares no Nordeste brasileiro, a exemplo do segmento canavieiro. Contudo, as políticas públicas voltadas para o desenvolvimento da agroindústria se fortaleceram a partir da década de 1960, ocasião em que o Banco do Nordeste do Brasil e a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), passaram a elaborar políticas específicas objetivando fortalecer a agroindustrialização da região.

As principais áreas de produção de matérias-primas (vegetal e animal) têm concentrado também as principais agroindústrias existentes no Nordeste. Assim, as agroindústrias da região têm se localizado, preferencialmente, próximas das fontes de matériasprimas. Referidas áreas apresentam, em geral, as melhores condições de escoamento da produção e são dotadas de infra-estrutura básica, que resultaram na instalação de áreas de concentração industrial ou distritos industriais. Dessa forma, esses espaços atraem também os fornecedores de insumos e de material de embalagem, de máquinas e equipamentos, além dos prestadores de serviços.

Espacialmente, as áreas de concentração de frutas e hortaliças encontram-se presentes em todos os estados do Nordeste, abrangendo o semi-árido (com a adoção da prática de irrigação), as serras úmidas, a zona da mata e o litoral. A atividade canavieira de sequeiro está concentrada na zona da mata e, em menor escala, nas serras úmidas, enquanto essa atividade irrigada localiza-se no semi-árido, Juazeiro (BA) com apenas uma usina. O cerrado nordestino (Maranhão, Piauí e Bahia) destaca-se como produtor de grãos, por meio da rotação das culturas arroz, soja e algodão. A pecuária leiteira está distribuída em todos os estados do Nordeste, porém concentradas em bacias leiteiras ou nas áreas produtoras de leite, geralmente localizadas no semi-árido. A bovinocultura de corte, por sua vez, predomina nos Estados do Maranhão, Sergipe e Bahia. As principais agroindústrias do Nordeste localizam-se nessas áreas citadas (Cartograma 1).

A agroindústria de algumas espécies vegetais irrigadas se consolidou, a exemplo do polo vitivinífero produzindo vinhos finos e espumantes, nos municípios do Vale do São Francisco de Casa Nova, na Bahia, Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, em Pernambuco, cujas uvas de castas nobres são irrigadas. Acerola, goiaba, banana, coco

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Cartograma 1 Áreas de Concentração de Agroindústria de Frutas e Hortaliças no Nordeste

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verde, pupunha e tomate, em pequena escala, figuram ainda no elenco de matériasprimas processadas e provenientes da agricultura irrigada nos estados do Nordeste. Contudo, vale ressaltar, essa integração se mostra distante do desejável, na medida em que a produção dos polos de fruticulturas irrigados no Nordeste visa o mercado interno e externo, sobretudo no que diz respeito a frutas e hortaliças in natura.

A importância da agricultura de sequeiro no Nordeste, como supridora de matérias-primas, está expressa na pauta das exportações da região, composta de amêndoa da castanha de caju, manteiga, liquor e pó de cacau, sucos concentrados de laranja e algumas polpas de frutas tropicais. O açúcar e o álcool produzidos na zona da mata, a fibra de sisal e a cera de carnaúba provenientes do semi-árido do Nordeste incluem-se na relação das exportações do Nordeste de matérias-primas elaboradas e semi-elaboradas provenientes da agricultura de sequeiro.

A fruticultura, a horticultura e a bovinocultura leiteira prevalecentes no Nordeste têm elevada participação de produção familiar, indicando, portanto, importância econômica e social. Na atividade canavieira nordestina, a figura do fornecedor de cana-deaçúcar apresenta um cenário de declínio, na medida em que as áreas cultivadas pelas usinas e destilarias têm se elevado, especialmente a partir da extinção do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), que limitava a participação máxima da agroindústria em 40% da capacidade de processamento.

O Nordeste está estrategicamente localizado em relação aos países desenvolvidos, reconhecidamente os maiores consumidores de produtos semi-elaborados ou semiprocessados. Além disso, a região conta com infra-estrutura portuária em operação no Maranhão (São Luis e Itaqui), Ceará (Mucuripe e Pecém), Rio Grande do Norte (Natal), Paraíba (Cabedelo), Pernambuco (Recife e Suape), Alagoas (Maceió), Sergipe (Aracaju) e Bahia (Salvador, Aratu e Ilhéus), os quais estão devidamente ajustados às grandes vocações de produtos exportados.

2. Tipologia da agroindústria do nordeste
2. 1 Considerações Gerais

O Nordeste possui vocação para produção de alimentos provenientes de carnes (bovina e de aves), pescados, grãos, frutas e hortaliças, além de matérias-primas de origem vegetal para outros usos, tais como algodão, cera de carnaúba, e fibras de sisal, dentre outros.

As diferenças entre as categorias da agroindústria de alimentos no Nordeste são marcantes, principalmente no que diz respeito às formas de gestão, linhas de produção, acesso à tecnologia e informações, abrangência e participação no mercado.

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Em número, as mini e pequenas agroindústrias predominam em todos os estados do Nordeste, seguidas das categorias de média e grande empresa. Em termos de geração de emprego formal e renda, a liderança fica por conta da grande empresa, seguida pela de médio porte.

De modo geral, as mini e pequenas agroindústrias nordestinas apresentam as seguintes características: administração tipicamente familiar; natureza jurídica predominantemente individual ou sociedade de capital social limitado; dificuldade de acesso às informações tecnológicas e de mercado; linha de produção restrita a produtos eminentemente populares, foco no mercado local; atuação isolada, tornando-se fragilizada nos mercados de maior competitividade.

Embora as agroindústrias de organizações de produtores não sejam expressivas no Nordeste, algumas iniciativas merecem destaque, a exemplo das ações desenvolvidas pelos sindicatos dos trabalhadores rurais de Feira de Santana e de Retirolândia, e do Instituto de Estudos Sócio-Ambientais do Sul da Bahia, na Bahia, e do Serviço de Tecnologia Alternativa, em Glória de Coitá em Pernambuco, uma vez que se constituíram em experiências exitosas de fomento ao modelo de agroindústrias associativadas/ cooperativadas de mini e pequenos produtores rurais.

A Cooperativa de Colonização de Pindorama, em Alagoas, é pioneira na produção de suco de maracujá no Brasil, tendo, ao longo dos últimos quarenta anos, diversificado sua produção com a inclusão de acerola, abacaxi, uva, caju, manga, goiaba e coco (leite e doce). Também a Cooperativa de Pindorama e a Usina Catende, na zona da mata, em Pernambuco, são exemplos da verticalização da produção de pequenos produtores nordestinos de cana-de-açúcar. Merece destaque ainda a experiência exitosa na Serra do Mel, no Rio Grande do Norte, com a castanha de caju processada por pequenas unidades fabris de pequenos produtores organizados.

Uma das principais características das médias e grandes agroindústrias nordestinas diz respeito à condição de produtora de matérias-primas (polpas de tomate, sucos concentrados de frutas, amêndoa de castanha de...

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