Adolescência, modernidade e a cultura dos direitos

Autor:Cristiana Carneiro - Leila Maria Amaral Ribeiro - Rita Ippolito
Cargo:Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - Pedagogia e Língua e Literatura Italiana pela Universitá Statale di Palermo, Itália
Páginas:176-191
RESUMO

O objetivo deste artigo é apresentar uma leitura do surgimento da categoria adolescência, as consequências e desdobramentos que tal perspectiva efetiva na criação de uma cultura de direitos. Nascida no ideário da modernidade, a adolescência traz em seu bojo certa concepção de temporalidade relacionada ao surgimento do individualismo e à valorização do desenvolvimento como trajetória humana. É... (ver resumo completo)

 
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http://dx.doi.org/10.5007/1807-1384.2015v12n1p176
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Adaptada.
ADOLESCÊNCIA, MODERNIDADE E A CULTURA DOS DIREITOS
Cristiana Carneiro
1
Leila Maria Amaral Ribeiro
2
Rita Ippolito
3
Resumo:
O objetivo deste artigo é apresentar uma leitura do surgimento da categoria
adolescência, as consequências e desdobramentos que tal perspectiva efetiva na
criação de uma cultura de direitos. Nascida no ideário da modernidade, a
adolescência traz em seu bojo certa concepção de temporalidade relacionada ao
surgimento do individualismo e à valorização do desenvolvimento como trajetória
humana. É somente a partir de uma concepção de trajetória necessária à construção
do indivíduo autônomo e livre, simbolizado pelo adulto, que se torna possível refletir
sobre o adolescente como sujeito de direitos. Portanto, o surgimento da categoria
adolescência como objeto de estudos e cuidados enseja também toda uma
discussão mais abrangente de direitos e deveres culminando com a ideia de ser
adolescente como um direito.
Palavras-chave: Adolescência. Modernidade. Individualismo. Liberdade. Direitos.
1 ADOLESCÊNCIA E UNIVERSALIDADE
Estudar a construção da adolescência como categoria, a articulando à
criação de uma cultura de direitos relaciona-se à possibilidade de pensá-la como
parte importante da trajetória de todos, como peça fundamental do desenvolvimento
1
Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora Adjunta e
coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudo e Pesquisa para a Infância e Adolescência
Contemporâneas na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: cristianacarneiro13@gmail.com
2
Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora Adjunta do Instituto
de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com atuação no Serviço de Psiquiatria da
Infância e da Adolescência. Professora do Curso de Especialização em Psiquiatria e Psicanálise com
Crianças e Adolescentes; coordenadora do Programa Violência Doméstica e Psicanálise, Rio de
Janeiro, RJ, Brasil. Email: leirib@gmail.com
3
Pedagogia e Língua e Literatura Italiana pela Universitá Statale di Palermo, Itália. Especialista na
área da Infância e Juventude, em Psicologia do Desenvolvimento Infantil. Atua no Brasil desde 1992,
trabalhando em projetos de desenvolvimento infanto-juvenil, e com atuação especifica na área dos
direitos humanos de crianças e adolescentes e a educação. Consultora independente para o
Ministério da Educação, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a UNESCO, a Casa de
Zabelé-PI, projeto da Ação Social Arquidiocesana, entre outros, com atuação em área de educação e
inserção social, direitos humanos e responsabilidade social. Email: rita.ippolito@gmail.com
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R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.12, n.1, p.176-191, Jan-Jun. 2015
humano. No entanto, a concepção de desenvolvimento humano, a importância da
biografia, as representações do foro íntimo como lugar de singularidade e verdade,
que hoje nos parecem tácitas, levaram séculos sendo gestadas e construídas. O
trajeto individual da criança para o adulto passou a ser uma preocupação a partir da
modernidade, e ensejou também toda uma discussão mais abrangente de direitos e
deveres, políticas específicas, garantia dos direitos. Alguns aspectos da
modernidade criaram as condições para que a trajetória passasse a ser objeto de
interesse, sendo o individualismo um ponto chave, como discorreremos mais
adiante. Outro aspecto importante foi a centralidade da razão e o ideal de adulto
racional, livre e autônomo. No presente trabalho visamos percorrer a construção da
categoria como fundamento para que se possa pensar numa cultura de direitos da
infância e adolescência.
Encontramos uma ancoragem da construção da categoria adolescência no
ideal de liberdade articulado ao individualismo na modernidade. A adolescência
surge com a tarefa de individualizar o homem para que esse seja capaz de levar
adiante o projeto moderno, no que concerne ao ideal de liberdade e autonomia. Mas,
como a adolescência surge como um tempo da vida humana, articulada a uma faixa
etária, ela também nos diz sobre as concepções de tempo que subjaziam esse
projeto.
Primeiramente, não é demais lembrarmos, que a adolescência enquanto
uma categoria distinta do adulto e da criança é uma invenção recente que chega
com a modernidade, pois foi apenas a partir do final do século XVIII que inicialmente
apareceu, vindo, somente, a se difundir amplamente no século XX. Em relação a
certa localização, aproximamos o termo modernidade ao uso feito por Giddens
(1991) onde “modernidade refere-se a estilo, costume de vida ou organização social
que emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram
mais ou menos mundiais em sua influência” (p. 11). Para ele, a modernidade teria
como marca um esforço global de produção e controle, cujas quatro principais
dimensões são: o industrialismo, o capitalismo, a industrialização da guerra e a
vigilância de todos os aspectos da vida social. Em relação ao enfoque por nós
destacado na modernidade, privilegiamos dois grandes eixos, a “confiança na
razão”, portanto na centralidade da razão como instrumento de libertação do
homem, e o surgimento do individualismo como fundamento do nascimento da
noção de sujeito (TOURAINE, 2002, p. 5).

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